Depois de lutar sem sucesso contra a doença míldio, que durante dois anos atacou as parreiras e causou perda de duas colheitas de uva fina de mesa temporã (colhida nos meses de abril e maio), o produtor Aparecido Humberto Marcon, de Bandeirantes (43 km a leste de Cornélio Procópio), modificou o manejo da cultura em busca de solução para o problema.
Orientado pela Emater do município, ele substituiu a prática tradicional - que prevê a utilização de grande quantidade de agrotóxicos - por um sistema baseado na redução do volume de defensivos, aplicação de produtos naturais para combater pragas e doenças e cuidados diários com as parreiras que proporcionam melhores condições para o desenvolvimento das frutas.
Bom para o bolso Os resultados são positivos. Este ano, além de voltar a colher a safra temporã, Marcon comemora uma vantagem que reflete no bolso: o custo de produção reduziu para R$ 745 por hectare (ha), enquanto em lavouras tradicionais chega a R$ 2000/ha.
Toda a safra deste outono foi comercializada antecipadamente. O produtor espera colher 1,2 mil caixas que, se negociadas ao preço de hoje, renderão R$ 7,2 mil.
Viticultor há dez anos, Aparecido cultiva uva em um hectare de uma propriedade familiar de 15,8 ha. Ele decidiu mudar o manejo da cultura porque não queria mais lidar com defensivos agrícolas. ‘‘Faz muito mal para a saúde’’, argumentou. De olho nas novas exigências do mercado, também enxergou na mudança uma oportunidade de atender aos anseios dos consumidores por produtos naturais. ‘‘Além disso, prejudica menos o meio ambiente.’’.
Tecnologia própria O extensionista da Emater José Elias Evangelista explicou que a técnica adotada por Marcon foi desenvolvida pela própria empresa em parceria com produtores. Muitos agrotóxicos foram substituídos por uma calda de bactérias feita com melaço de cana, farelo de arroz e leite. A substância é eficiente no combate ao ácaro, oídio e outras pragas.
Contra o míldio, é utilizado o adubo Fotofós K. A mosca-de-frutas é controlada por armadilhas confeccionadas com garrafas pet preenchidas com refrigerante. Através da observação diária, ele detecta se há incidência significativa do inseto que justifique a aplicação de veneno. ‘‘Há dois anos não temos problema com mosca-de-frutas’’, comemora o produtor.
Segundo Evangelista, nas propriedades dos dez produtores que aderiram à produção alternativa de uva o volume de agrotóxicos utilizados foi reduzido em 59%. ‘‘Quando há necessidade de usar defensivos, a opção é por produtos de baixa toxicidade’’, disse. Ele acredita que na safra de final de ano esse índice diminurá ainda mais, pois a uva temporã, por ser fora de época, é mais suscetível a pragas.
Cuidados redobrados O trato do parreiral exige cuidados redobrados. O produtor não pode deixar excesso de cargas ou galhos, precisa equilibrar o mato e tirar pés duplos para evitar sobrecarga. ‘‘O grande segredo é dar condições para que a planta desenvolva auto-defesa’’, explicou o técnico.
Na propriedade de Aparecido Marcon, a adoção dessas recomendações permitiu aumentar o número de pés de uva de 250 para 600. Isso não significou, porém, aumento de trabalho para o produtor e sua esposa Lúcia, que o ajuda na lida. ‘‘Como tem menos galhos, ficou mais fácil trabalhar’’, explicou a agricultora.

mockup