O aumento dos preços dos produtos agrícolas para o consumidor, seja por causa de uma seca ou de uma geada e a consequente quebra de safra, ou até pelo aumento de conbustível, é sempre creditado ao agricultor, que na ponta da cadeia produtiva de alimentos pouco tem a influenciar quanto a dona-de-casa vai pagar pelo litro do leite, pelo quilo do tomate ou o quilo da carne.
Da propriedade rural até a mesa do consumidor, dependendo do produto, há um longo caminho a percorrer e nesse caminho outros agentes da cadeia produtiva vão agregando valor aos produtos e matérias-primas.
Grandes margensEm alguns casos a diferença entre o preço pago ao produtor e o preço que o consumidor paga, pode chegar a mais de 100%. Dependendo do produto e da sua utilização esse percentual se explica pela transformação na indústria, gastos no transporte ou armazenagem, entre outros fatores.
A sociedade urbana desconhece os processoas da cadeia (produtiva) dos produtos agrícolas e não sabe que da porteira para fora os produtos vão sofrendo aumentos em seus valores, que não implicam em preços maiores e mais lucratividade para o agricultor. Geralmente quem produz é quem fica com a menor fatia. Muitas vezes a fatia que sobra para o produtor, só serve para pagar sua dívida de ontem.
Atividade de riscoÉ importante para o setor urbano perceber dois aspectos dos produtos agrícolas. ‘‘O primeiro deles é que a agricultura é uma ‘atividade a céu aberto’, e portanto, raras vezes o agricultor consegue produzir a quantidade e a qualidade que ele planejou, porque isso vai depender do clima naquela safra’’, afirma a professora do setor de Ciências Agrárias do Departamento de Economia Rural e Extensão, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Vânia D’addario Guimarães.
Se há uma intempérie como as geadas deste mês de julho, lembra Vânia, a quantidade de produto disponível é menor e o preço aumenta, porque o produto está mais escasso. ‘‘O preço aumenta para o produtor e o consumidor. Mas, neste caso, ambos perdem: o consumidor porque gasta mais e o produtor porque, apesar do preço aumentar, ele tem menos (ou quase nenhum) produto para vender.’’
Despesas no processamentoPor outro lado, quando o clima é favorável, o consumidor sai beneficiado, porque usa uma parcela menor da sua renda para adquirir o produto. O produtor pode ser prejudicado, porque o preço pode ser inferior ao custo de produção. Esta variação na quantidade de produto disponível faz com que em certos momentos o consumidor chegue a pagar R$1,75 pelo quilo do tomate, por exemplo, e em outro momento gaste apenas R$0,47 pela mesma quantidade.
O segundo aspecto, afirma Vânia, é que para a maioria dos produtos de origem agrícola, a forma na qual são produzidos não é mesma forma em que são consumidos.
‘‘Dependendo do grau de processamento, embalagem, classificação, transporte e armazenamento, maior a diferença entre o preço que o produtor recebe e o preço que o consumidor paga, devido aos custos para executar estes serviços.’’ Na maioria das vezes a sociedade urbana desconhece esse processo. A diferença entre o preço que o consumidor paga e o que o produtor recebe é denominada ‘‘margem de comercialização’’.
Um trabalho realizado pelos professores da UFPR, Vânia Guimarães e Judas Tadeu Mendes, sobre as margens de comercialização de alguns produtos em Curitiba, nos períodos de 1975/1982 e 1989/1990 indicou, por exemplo, que em produtos como arroz e feijão, o produtor recebeu metade do preço que o consumidor pagou.
Para produtos com maior grau de processamento como o açúcar e derivados do milho, por exemplo, a participação do produtor no preço pago pelo consumidor pode ser inferior a 30%.
DesinformaçãoSegundo a professora Vânia, é importante lembrar que entre o produtor e o consumidor há diversos ‘‘agentes’’ trabalhando para que o consumidor encontre nos supermercados, feiras, padarias e outras unidades de varejo, o produto desejado, na forma preferida.
Quando o consumidor vai comprar maçãs, por exemplo, não está interessado em saber, ou não tem idéia, se é época de colheita de maçãs. Mas há quem produza e quem armazene a produção obtida em dois ou três meses do ano e tenha produto para oferecer o ano todo.
‘‘Da mesma forma, quem se preocupa em saber se é época de colheita de soja? O óleo está sempre nos mercados à disposição do consumidor, porque alguém armazenou e processou a soja, produzindo e envasando o óleo que o consumidor vai usar’’. O mesmo vale para praticamente todos os produtos agrícolas que são produzidos em épocas definidas do ano, mas de consumo constante. ‘‘Esta é a importância do armazenamento que custa e vai compondo a diferença entre o preço que o consumidor urbano paga e o produtor recebe.’’
Muitos custos‘‘E o que dizer do transporte?’’, pergunta Vânia. A produção agrícola é gerada em milhares de propriedades rurais espalhadas pelo Paraná e pelo Brasil. Esta produção tem que ser reunida, padronizada, embalada, processada e distribuída novamente nas milhares de unidades de varejo também espalhadas pelo País. ‘‘Este é outro fator de custo para compor a margem de comercialização, assim como outros fatores como o custo de industrialização que formam o conjunto dos serviços que estão sendo adicionados ao produto’’, explica Vânia.
E a especulação?Mas será que apenas estes custos explicam as diferenças de preços? Será que não há um pouco de especulação nesta história toda? ‘‘Deve haver, mas se existe não é o produtor rural que comanda o espetáculo da especulação, especialmente os pequenos produtores e os produtos que são mais perecíveis como no caso de hortifrutigranjeiros.’’
Quando um produto é perecível, lembra Vânia, não adianta tentar ‘‘guardar’’ para esperar preço melhor, porque o produto estragará e ele não terá o que vender se esperar. ‘‘Para produtos menos perecíveis como café, o produtor pode estocar, esperando preços maiores (o que não deixa de ser uma ‘‘especulação’’), mas ele só pode fazer isto se puder se dar ao luxo de não vender.’’
É bom que fique claro, lembra Vânia, que a produção é a fonte de renda do agricultor e sem venda não há dinheiro em caixa. ‘‘Como ele vai pagar as contas?’’
Agricultor leva culpaLevando em conta que a maior parcela da produção agrícola do Paraná (e do Brasil) vem das pequenas propriedades rurais, cuja renda média, por sinal, é menor do que nas regiões urbanas, fica difícil, considera a professor da UNFPR, admitir que a instabilidade dos preços dos produtos agrícolas seja causada por ação especulativa desses agricultores.
‘‘Se há um ‘viés’ na variação dos preços é mais provável que tenha origem nos demais agentes do mercado, com maior poder de barganha nas negociações do agricultor. O trigo que é produzido em milhares de propriedades rurais, especialmente no Paraná e no Rio Grande do Sul, é um exemplo’’, avalia Vânia.
Segundo a professora da UFPR, no caso do trigo, do outro lado há cerca de 110 moinhos operando no País, mas apenas os cinco maiores detêm 56% da capacidade instalada de moagem.
‘‘Para muitos outros produtos o número de empresas é menor e a sua participação no mercado é maior. Será que o produtor tem maior influência sobre os preços de mercado do que um punhado de empresas?’’, questiona Vânia.
Ela explica que mesmo em mercados onde esta concentração não acontece como no feijão, por exemplo, a situação não é muito diferente. É comum que o produtor venda a produção para o primeiro que apareça na porta da propriedade e receba um preço abaixo do que o mercado está praticando.
Desconhece mercadoOutro fator ainda para pensar, segundo Vânia, é: será que o produtor rural lá na sua propriedade distante da cidade tem a mesma quantidade e qualidade de informação que possuir, por exemplo, um comerciante especializado no produto agrícola? ‘‘Já se provou que não. E informação para quem está negociando é fundamental.’’
Pode-se prever que os agricultores que produzirem e agregarem valor aos seus produtos, transformando-os na propriedade e atuando no transporte e venda direta nos varejos possam ter uma margem de lucratividade maior. Mas, para isso, terão que investir em formação e estrutura, o que quase sempre não é possível.

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