Melhoramento com raças africanas
Cláudia Barberato
De Londrina
Sangue novo. Este é um ingrediente que a pecuária precisa, sempre, para agilizar os resultados no cruzamento. A cruza entre espécies diferentes, segundo a pesquisa, é renovadora. As espécies diferentes se completam. O vigor híbrido de duas espécies diferentes resulta em melhoria nos resultados do produto deste cruzamento, ou seja, nos filhos desses animais que terão peso melhor na desmama, qualidade da carne, fertilidade, entre outras características melhoradoras, garante o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS), Kepler Eulcides Filho.
Kepler foi um dos pesquisadores da Embrapa (dois da Embrapa Corte e mais um da Pecuária Sudeste) que visitaram durante três semanas regiões da África do Sul, para conhecer raças bovinas para produção de carne e que poderão ser utilizadas no Brasil. O objetivo da visita, além de conhecer, foi estudar a viabilidade de importação de material genético desses animais.
Na África do Sul, os pesquisadores conheceram raças nativas ngnungi, drakensberger, afrikaner e bonsmara, e uma raça composta, resultado de cruzamento de raça nativa com uma européia, todas para a produção de carne. A bonsmara é uma raça composta, fruto do cruzamento da afrikaner com uma raça européia.
Segundo Kepler Euclides Filho, das quatro raças africanas, a bonsmara já é utilizada no Brasil. Existem alguns animais numa propriedade no interior de São Paulo, que já estão sendo desmados. Segundo o pesquisador, ao que se sabe, esses animais indianos entraram no País há cerca de dois anos, através da Argentina, provenientes da África do Sul.
Troca genéticaOs pesquisadores foram conhecer e avaliar a utilização dessas raças no cruzamento industrial, além da criação de animais puros. De acordo com Kepler, depois de negociações diplomáticas entre órgãos responsáveis por compra e venda de material genético entre os dois países, será possível, em breve, utilizar embriões de animais africanos no rebanho brasileiro.
Na África do Sul, conta o pesquisador, essas raças estão bem adaptadas, criadas em regiões de extrema seca e com baixa qualidade de forragens. Esses animais, aqui no Brasil, de acordo com o pesquisador, seriam uma alternativa para regiões do Nordeste do Brasil e Pantanal, por exemplo. Poderiam ser usados em regiões de adversidades climáticas, com pouca chuva e baixa qualidade de alimentos a oferecer ao rebanho.
Kepler conta que os animais africanos são um pouco menores do que se vê no Brasil, mas de alta taxa de fertilidade. O Brasil poderia comprar os embriões, para evitar contaminação ou doenças, e usar as raças na produção de carne. Elas estariam bem adaptadas a regiões tropicais, diz o pesquisador.
Além da fertilidade, Kepler constatou que os animais africanos obtêm bom peso a desmama e maciez de carne. Provei a carne de todas elas. Outra qualidade é o bom temperamento são dóceis. Criados a pasto, recebem pouca suplementação; apenas um tipo de sal proteinado e, pelas condições de extrema seca, até as vacas têm essa mesma dieta.
Os pequisadores viajaram a convite do Centro de Pesquisa em Pecuária e Agricultura da África do Sul e associações de criadores das raças. Kepler acredita que a introdução de novas raças nas criações brasileiras é sempre um benefício.
Há o interesse da pesquisa e de produtores em desenvolver testes, mas a aprovação da compra de sêmen da África do Sul precisa de determinação dos órgãos competentes do Governo e do Ministério da Agricultura.
Se aprovada a compra, Kepler acredita que seria necessário montar um núcleo de pesquisa para utilização em cruzamentos, em parcerias com os produtores. São raças resistentes, que têm boa qualidade e que poderiam imprimir novos resultados aos cruzamentos.
Por ser de uma espécie diferente, do tipo sanga (origem africana) e não bostaurus (indiana), por exemplo, o choque de sangue no cruzamento permitiria bons resultados. Em cruzamento com zebuínos ou europeus, proporcionaria um vigor híbrido muito melhor. Mas é preciso avaliar bem os resultados antes de validar sua utilização.
A princípio, no cruzamento com o animal europeu, as raças africanas poderiam provocar um efeito semelhante ao que acontece na cruza com o zebu, trazendo grande rusticidades aos produtos (filhos) e precocidade reprodutiva.
No cruzamento com o animal zebu, os animais africanos manteriam características de rusticidade e contribuiriam para precocidade e maciez de carne. Seriam animais também econômicos, no ponto de vista de manejo alimentar, e rústicos por sobreviverem na adversidade.





