Cláudia Barberato
De Londrina
Entre as principais atividades não agrícolas, com importância crescente no meio rural brasileiro, deve-se destacar, em primeiro lugar, as industriais, em particular as agroindústrias. Em segundo seriam as atividades relacionadas com a urbanização do meio rural (como moradia, turismo, lazer e outros serviços) e a preservação do meio ambiente.
Em terceiro lugar, mas não menos importante, José Graziano, proofessor da Unicampo, destaca a proliferação dos sítios de recreio ou chácaras destinadas ao lazer de famílias de classe média urbana.
‘‘Há um conjunto de atividades não agrícolas, como a prestação de serviços, comércio e a indústria, que respondem cada vez mais pela nova dinâmica populacional do meio rural brasileiro’’, afirma Clayton Campanhola, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, que fez parte do Projeto Rurbano, desenvolvido por uma equipe de pesquisadores ligados à Unicamp, de Campinas (SP) e outras instituições.
Com os resultados do Rurbano, segundo Campanhola, não se quer negar o peso do agrário no meio rural brasileiro, especialmente no que diz respeito às regiões Norte e Nordeste. É fundamental entender, avisa o pesquisador da Embrapa, que além do arroz, feijão, carne e dos ‘‘bóias-frias’’ e fazendeiros, o mundo rural está criando outro tipo de riqueza, baseada em bens e serviços não materiais e não suscetíveis de desenraizamento.
Ou seja, o espaço rural não pode ser pensado apenas como um lugar produtor de mercadorias agrárias e ofertador de mão-de-obra. ‘‘Além de poder oferecer ar, água, turismo, lazer, bens de saúde, possibilitando uma gestão multipropósito do espaço rural, oferece a possibilidade de, no espaço local-regional, combinar postos de trabalho com pequenas e médias empresas’’, resume o pesquisador da Embrapa.
Políticas básicas‘‘A falta de infra-estrutura social básica nos locais onde as atividades giram em torno da agropecuária, transformou esses povoados apenas num passo intermediário do êxodo em relação às grandes cidades’’, alerta outro pequisador do Projeto Rurbano, José Graziano da Silva.
Por isso, lembra José Graziano, é fundamental que também em pequenas e médias cidades do Interior seja implementada uma estratégia de criação de empregos não agrícolas, dotando-as de infra-estrutura adequada (luz, água, esgoto, saneamento básico, creches, escolas, hospitais, etc) e estimulando a instalação de agroindústrias, visando aumentar o valor agregado da produção agropecuária local e evitando os conhecidos ‘‘passeios da safra’’, que além de prejudicial ao País como um todo, drena a maior parte do excedente da renda agrícola do interior do País.
Novas funçõesO meio rural, de acordo com as pesquisas do Projeto Rurbano, ganhou novas funções e novos tipos de ocupações: lazer nos feriados e fins de semana (especialmente para as famílias de renda média baixa que têm transporte próprio), através dos pesque-pague, hotéis-fazendas, chácaras de fins de semana, e outros.
Outra função é dar moradias a um segmento crescente da classe média alta (condomínios rurais fechados nas zonas suburbanas) e à população de baixa renda que habita a zona rural, mas trabalha na zona urbana, como é o caso das empregadas domésticas, além de desenvolver atividades de preservação e conservação da natureza.
Aparece também com a função de abrigar um conjunto de profissões tipicamente urbanas, que estão proliferando no meio rural, em função da urbanização do trabalho rural, assegurada pela igualdade trabalhista obtida na Constituição de 1988 (motoristas de ônibus para transporte de trabalhadores rurais, mecânicos, contadores, secretárias, digitadores, trabalhadores domésticos).
Terceira faseA fase três do Rurbano será iniciada em março do ano que vem. Segundo o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Clayton Campanhola, o objetivo será aprimorar e ampliar os dados conseguidos nas duas fases anteriores.
O Projeto Rurbano contou nas fases um e dois com a participação de 25 pesquisadores envolvidos em 11 Estados do País, dedicados parcial ou totalmente ao tema proposto das novas relações entre o rural e o urbano. Essa equipe de pesquisadores vincula-se a 16 instituições de ensino e pesquisa de todo o País.
Reduzir êxodoNa opinião dos pesquisadores do Projeto Rurbano, as implicações desse diagnóstico para as políticas agrárias são muitas. ‘‘Pode-se pensar, por exemplo, que o tão sonhado desenvolvimento rural, que viria finalmente estancar o êxodo em direção às cidades, possa ser alcançado pelo estímulo de um conjunto relativamente amplo de atividades não agrícolas no meio rural. Essas atividades gerariam ocupação e renda para um conjunto significativo de pessoas’’, afirma Campanhola.
‘‘Até mesmo a tão sonhada reforma agrária poderia ser implementada a partir de atividades que não precisariam ser mais essencialmente agrícolas, pelo menos no eixo Centro-Sul do País’’, acrescenta Graziano.

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