Quanto de água embutida existe nos produtos que consumimos? Estas contas normalmente não fazemos, na verdade nunca nos importamos com isto, porém já passou da hora de nos preocuparmos, pois a crise mundial da água também vai chegar ao Brasil. Pat Costner, cientista, tem afirmado que o nosso sistema de esgoto baseado em água é responsável por um grande desserviço psicológico.
  Desde a idade em que passamos a usar o vaso sanitário, passamos a pensar na água como um receptor de dejetos, associando-a a resíduos. Na verdade, é um absoluto contrassenso usar o nosso recurso mais precioso para transportar excrementos até caríssimas estações de tratamento de esgotos.
  Quando se tem água em abundância, com nossos sanitários engolindo litros de água e as torneiras despejando água quente e fria dia e noite na maioria das residências, é fácil esquecer que tal recurso é valioso e finito. Somente quem passa um tempo com escassez de água dá valor a ela. Depois dessa experiência, é impossível voltar a abrir a torneira sem ser tomado por um sentimento de gratidão.
  A água é necessária em praticamente todos os processos produtivos. Uma usina de fabricação de papel usa 300 toneladas de água para produzir uma tonelada de papel. Cultivar algodão para uma camiseta, igual a que usamos, requer 970 litros de água. Para termos nossa xícara de café da manhã, 136 litros são usados para a criação, produção, envase e transporte dos grãos. Produzir um carro exige mais de 50 vezes o seu peso em água, ou quase 150.000 litros. E grande parte desta água usada na produção desses bens acaba contaminada por substâncias químicas, como água sanitária, e há sempre o perigo de que essas toxinas penetrem nos lençóis freáticos ou vazem de porões de navios para rios e mares.
  Quase ninguém olha para uma camiseta de algodão ou um carro e pensa em água. Para trazer este conceito novo de água, o professor britânico John Allan criou o conceito de água virtual, que é aquela quantidade de água embutida nos alimentos ou em outros produtos, baseada em quanta água foi necessária para extraí-la ou produzi-la. Países que cultivam e exportam produtos agrícolas que demandam uso intensivo de água, como algodão, café e frutas, podem ser considerados exportadores de água virtual.
  Em outras palavras, quanto mais coisas são produzidas, usadas e substituídas, mais água é consumida. E onde está a água disponível? Em nossas minas e rios, e por este motivo temos que protegê-los com mata ciliar, e preservarmos nossas matas.

Fernando de Barros é engenheiro civil, especialista em Planejamento e Gestão Ambiental, mestre em Engenharia de Edificações e Saneamento e responsável técnico da Master Ambiental. Sugestões de temas: [email protected].

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