Cláudia Barberato
De Londrina
O vendedor garante para o comprador que a novilha que está vendendo tem boas condições de saúde. O comprador acredita e leva o animal. A fêmea, prenha, no terceiro ou quarto mês de gestação aborta, em consequência de uma brucelose. O comprador perde, então, um futuro bezerro ou bezerra que aos 18 meses seria abatido e valeria entre R$350 e R$450.
O prejuízo começou quando o comprador confiou no vendedor e não exigiu a comprovação da sanidade. Muito menos realizou os testes rotineiros para verificar a saúde do animal que estava comprando. Com um exame de soroaglutinação, que custa de R$3 a R$5, poderia ter detectado o problema. A dose única de vacina contra a doença, que sai por R$5 em média, teria evitado a perda da cria. Por R$10, tanto o vendedor da novilha, quanto o comprador, teriam evitado todo o prejuízo.
A situação acima é simulada como exemplo de que a adoção de medidas simples e rotineiras podem evitar o surgimento de doenças nos rebanhos que afetem a produção e reduzem produtividade na pecuária. O exemplo serve para qualquer tipo de criação, de pecuária de corte até a criação de pequenos animais.
O exemplo foi usado pela professora da Universidade de São Paulo, Masaio Mizuno Ishizuka, da área de Saúde Animal e Medicina Veterinária Preventiva, durante o 1º Encontro Nacional do Boi Verde - A Pecuária Sustentável. O evento começou na quinta-feira, dia 5, e termina hoje, 7, em Uberlândia (MG).
Cuidado é investimento ‘‘Não há novidades na prevenção de doenças em pecuária. O que existe são conceitos básicos que foram esquecidos e não são adotados por falta de organização nas propriedades. Não custa caro e acaba sendo investimento’’, garante Masaio.
De acordo com Masaio, na prevenção de doenças existem ‘‘cinco degraus’’. Até o ‘‘quarto degrau’’, avisa a professora, a responsabilidade é do criador. Já no ‘‘quinto degrau’’, que ela chama de ‘‘doença notificada’’, a responsabilidade passa a ser do Governo, que deverá agir para erradicar o problema. Caso da aftosa, por exemplo.
O primeiro dos degraus, de acordo com a veterinária, é chamado de ‘‘promoção de saúde’’, o que significa ter controle sobre a origem dos animais. Se de um lado há grande preocupação com a genética, de outro terá que se ter também comprovação da sanidade do animal. Exigir do vendedor os testes e exames necessários para garantir esta saúde e comprová-la, com novos testes.
Higiene e administraçãoOs cuidados também se estendem pela instalação do rebanho (higiênica e adequada ao conforto dos animais); organização de cadastrados, com fichas em que são anotados todos os dados dos animais e qualidade da água e alimentos.
A prevenção inespecífica de doenças, o ‘‘segundo degrau’’, seria a adoção de medidas ligadas ao meio ambiente; ‘‘como conhecer de onde vem a água que é fornecida aos animais e higienizar constantemente bebedouros e comedouros, para evitar que água e alimentos se deteriorem.’’
A proteção específica, o ‘‘terceiro degrau’’, seria a vacinação dos animais quando existe necessidade, ‘‘um manejo no qual o veterinário deve atuar como educador do produtor,’’ orienta Masaio.
De olho no rebanhoO ‘‘quarto degrau’’ seria o diagnóstico precoce de eventuais doenças através do monitoramento do rebanho. ‘‘Num primeiro caso de aborto no rebanho, por exemplo, verificar junto com orientação do veterinário, através de exames laboratoriais e outros recursos, a causa desse aborto’’, recomenda.
No chamado ‘‘quinto degrau’’, o das doenças instaladas e em expansão, de acordo com Masaio, é hora de notificar e deixar o Governo agir. ‘‘O Governo ensina e supervisiona e não tem obrigação de vacinar ou fazer os exames rotineiros. Isto deve ser da responsabilidade do criador, que deverá estar consciente de que medidas básicas podem minimizar problemas de aftosa, brucelose e tuberculose, entre outras doenças.’’
Maior consciênciaA produção do boi verde, calcula Masaio, poderá evitar todos esses problemas, minimizar o aparecimento de doenças e maximizar a produtividade. Ao primeiro sintoma de que alguma coisa está errada o pecuarista deve isolar o animal e seguir orientação de um veterinário. ‘‘Deve-se pressupor que o criador, que tem a preocupação em produzir com qualidade e em menor tempo, deverá começar adotando cuidados básicos com o rebanho.’’
É preciso mudar a mentalidade de muitos criadores, garante Masaio. Até o ‘‘quarto degrau’’, segundo ela, o pecuarista tem condições de atuar e evitar problemas como a aftosa, por exemplo, doença que impede a ampliação do mercado externo para a carne brasileira. ‘‘Assim como a aftosa, outras doenças poderão tornar-se problemáticas e aumentar as barreiras de exportação. Se o criador atuar na prevenção de doenças, não será pego de surpresa.’’
O pecuarista, de acordo com a veterinária, sabe como evitar as doenças, mas é preciso relembrar. ‘‘A pecuária pode torna-se mais rentável, se ele adotar as medidas de biossegurança. A biossegurança é um conjunto de medidas sanitárias para impedir ou minimizar a entrada ou saída de agentes de doenças. Permite o diagnóstico precoce do problema e a atuação profilática, para que o poblema seja extinto no ponto de surgimento. A boa administração sanitária garante essa segurança.’’

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