Em vez de aparelhos de nomes complicados, médico prefere ferramentas que cuidam da saúde das plantas
Nas mãos, ao invés de uma seringa e outros aparelhos de nomes complicados como o esfigmomanômetro (verificador de pressão arterial), ele traz agora pás e espátulas. As pequenas tesouras foram trocadas por outras um pouco maiores. O centro cirúrgico também foi remodelado. Ao invés de uma sala de cerca de 40 metros quadrados ele tem agora um galpão com 1.240 metros quadrados. Luzes mais tênues, mas o mesmo barulho de instrumentos em operação. O número de leitos ainda é pequeno, pois o ''hospital'' começou a funcionar há seis meses, mas a capacidade é para 25 mil. Os pacientes? São criaturas pequenas e delicadas, como amores-perfeitos, petúnias, gérberas.
Depois de 30 anos, o médico anestesista Marcus Francisco Barreto Soares mudou de profissão. Ele agora é produtor de flores. Desde janeiro deste ano, trocou definitivamente os hospitais por uma chácara de dois hectares, no patrimônio do Espírito Santo (zona sul de Londrina). A escolha da nova atividade, segundo ele, durou cerca de dois anos de muitas pesquisas e idas e vindas de centros floristas como a cidade de Holambra (SP). ''Queria largar a medicina e a cidade por uma vida mais tranquila'', justifica o médico. A idéia encontrou o apoio irrestrito da esposa, a professora e geógrafa Márcia Soares, que também trocou as salas de aula pela estufa de flores.
Na montagem da estufa, Soares escolheu o que tinha de mais moderno no mercado. O investimento ele não revela, limita-se apenas a dizer que ''é alto''. Uma matéria publicada num jornal foi definitiva na escolha da nova função. ''95% das flores comercializadas em Londrina e no norte do Estado vêm de fora'', afirma. O passo seguinte foi escolher o que produzir. Em vez dos tradicionais crisântemos, ele optou por flores menores. Atualmente cultiva onze espécies: brinco-de-princesa, begônia, amarílis, impatiens (beijo), petúnias, gerânios, beijinho-do-campo, verbena (colchão de noiva), taget, gérbera e amor-perfeito.
As flores produzidas na chácara, Soares diz que são provenientes de mudas holandesas, alemãs e italianas. Cada flor exige um tipo de cuidado e tem tempo de cultivo diferente. ''No geral, a produção floresce de 8 a 12 semanas depois do plantio''. Ele lembra que é o único produtor de begoninhas (azedinhas) da região de Londrina. A flor é produzida a partir de sementes de begônia geneticamente modificadas. o resultado é uma flor menor, mais delicada e colorida.
O objetivo do médico, entretanto, é tornar o lugar uma referência no cultivo de orquídeas as phalenopsys. Tanto que a chácara foi batizada de Vivenda das Orquídeas. ''Pretendemos negociar mudas produzidas através de clones'', revela. Para isso, Soares até cogita investir na construção de um laboratório de produção de mudas. Todo o aprendizado ele diz que está sendo acompanhado de perto por uma empresa de assessoria de Holambra, a Flortec.
Modesto, o médico destaca que a responsabilidade pelas pequenas belezas que começam a dar cor ao ambiente é da esposa. O rítmo de vida da família agora é acordar cedo e antes das 7 horas o trabalho começa na estufa, com semeadura, replantes, irrigação, limpeza de vasos e flores, entre outros. Aos poucos eles pretendem ir adaptando o cultivo à técnicas naturais ou orgânicas. Já se vê entre os vasos pedaços de purunga verde, que segundo o médico produtor, são utilizadas como controladores biológicos para atrair as vaquinhas (uma espécie de besouro que come as folhas verdes).
Para o plantio eles utilizam substratos a base de pinus. Do lado de fora da estufa de flores eles mantêm um viveiro, com 450 metros quadrados, que se destina à produção de plantas ornamentais para jardins. A produção também se inicia com a cerca viva sansão-do-campo. Há outros experimentos como a produção de nim (planta com propriedades inseticidas). Para consumo da família e funcionários do viveiro, a chácara possui ainda uma pequena horta.
Satisfeito com a nova opção de vida, Soares diz que não tem pressa no retorno do dinheiro investido. Nos preços das flores ele diz que o lucro é pequeno mas ''satisfaz''. ''Dinheiro é consequência do trabalho. Com ele gero empregos e divisas'', destaca. Ele é também um dos fundadores e vice-presidente da Associação dos Produtores de Flores e Plantas Ornamentais do Norte e Noroeste do Paraná (Aflonorpa), criada durante a Exposição 2003, em abril, na véspera da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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