Marketing depende da qualidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de novembro de 1998
Cláudia Barberato 
O marketing só funciona quando todo o processo de produção da carne está bem resolvido. Sanidade, nutrição, genética, produção, entre outros itens, na propriedade. Transporte adequado, abate e refrigeração, no frigorífico. Boa conservação e apresentação, nos atacadistas e supermercados. Toda cadeia produtiva deve estar organizada antes de pensar em marketing do produto, avalia o superintendente-técnico da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), Luiz Antônio Josahkian.
Organizar a cadeia produtiva, segundo Josahkian, tem sido a preocupação de entidades como a ABCZ e outras ligadas ao setor pecuária. Com objetivo de iniciar a discussão sobre marketing, integrando os setores da cadeia produtiva, a ABCZ promove de 29 de novembro a 2 de dezembro o 3º Congresso Brasileiro das Raças Zebuínas. O evento será realizado no auditório A da Faculdade Federal de Medicina do Triângulo Mineiro, em Uberaba (MG).
O congresso terá como tema A integração da cadeia produtiva pecuária. Serão tratados também assuntos ligados à nutrição, reprodução, sanidade e genética zebuína. De acordo com Josahkian, nada mais justo de que essa discussão seja iniciada com abordagem sobre as raças zebuínas, que compõem ou estão em 80% do rebanho nacional de bovinos, estimado em 150 milhões de cabeças.
Bem para a saúde Outro dos temas será o consumo da carne vermelha. Segundo o superintendente-técnico da ABCZ, nos últimos anos alguns profissionais da área de saúde têm desenvolvido campanhas contra o produto, estabelecendo uma relação entre a carne e as doenças do coração. Queremos mudar o conceito, afirma.
O médico Miguel Barbero, do Instituto do Coração (Incor), de São Paulo, falará sobre a carne bovina como alimento indispensável para a formação do homem. A palestra será no dia 2 de dezembro.
Passos da carneA ABCZ convidou também um dos responsáveis pelo comércio da carne pela União Européia, principal importador da carne bovina do Brasil, Peter Hardwick, do setor de compra de produtos de origem animal. Ele falará sobre rastreabilidade dos animais, uma das exigências da União Européia. O método garante informações sobre todo o processo da produção de carne, desde o nascimento do animal na fazenda e pode ser feito com identificação eletrônica dos animais, através de um chip no corpo do bovino.
O sistema de rastreamento dos passos da carne, do produtor até o varejo, ainda é pouco desenvolvido no Brasil. Segundo Josahkian, é possível que aqui o processo se inicie com controle feito no papel, diferente de países mais desenvolvidos na pecuária, que já utilizam o cheep eletrônico no animal para armazenar todas as informações da produção.
Deverão ser criados mecanismos para identificação do produto no mercado, com informações desde o nascimento do animal, sua origem, crescimento e desenvolvimento, entre outros dados. Já existem as etiquetas em que o consumidor pode conferir algumas informações sobre o produto. O rastreamento deve servir para os atacadistas e supermercados orientarem compra de produtos de melhor qualidade. Deverá ser também uma maneira de amenizar o grande número de abates clandestinos no País, acredita Josahkian.
O processo de rastreabilidade já tem algumas experiências no Brasil, com trabalhos do Fundo de Desenvolvimento Pecuário (Fundepec), de São Paulo, e da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS). São trabalhos de exploração de solução para a rastreabilidade dos rebanhos. É fundamental fazer com que o produtor entenda o assunto.
Também a identificação eletrônica já é estudada. Requer, segundo Josahkian, infra-estrutura e investimentos que ainda não são viáveis para a média da pecuária brasileira, que sequer tem uma estação de monta programada na propriedade. Não seria ainda um padrão para o Brasil, até mesmo pelo alto custo. Todas as informações sobre o animal estariam à disposição de quem vai comprar a carne, o distribuidor, atacadista ou supermercado. Na prateleira, o consumidor teria outras informações na etiqueta de identificação das peças da carne, como idade, sexo, animais castrados ou não, entre outras.
No caso da identificação eletrônica, com chips, segundo o superintendente, a Agropecuária Damha, de São Paulo, já está fazendo experiência. Durante o congresso, um dos responsáveis pelo uso da rastreabilidade eletrônica relatará a experiência.
Já era horaMuito já se falou de programas para incentivar o marketing, mas ainda poucos desses processos saíram do papel. As lideranças do setor produtivo precisam, primeiro, mudar alguns conceitos de quem está produzindo, abatendo, transportanto, vendendo e até consumindo a carne bovina. O processo é demorado e exige, acima de tudo, vontade de mudar.
O manejo básico nas propriedades deverá ser mudado. Programar uma estação de monta, caprichar na nutrição dos animais, pensar em melhorar a genética e a sanidade dos rebanhos, entre outros acertos, deverão ser feitos não só para conquistar maior produção, mercado e rentabilidade, mas também para tornar a pecuária mais competitiva nos tempos de globalização.Arquivo FRDevem começar pelo zebu (nelore na foto), base do rebanho nacional, mudanças nas áreas de nutrição, sanidade, reprodução e genética para melhorar o marketing da carneCongresso de raças zebuínas, base do rebanho nacional, discutirá formas de aumentar produção e consumo


