Milton Dória




Erro e acertoAlmeida mostra a marcação errada na anca do animal, o que deprecia o couro e, numa das pernas, o local correto

O produtor não recebe nada pelo couro do animal. Desconhece a lei que regulamenta a marcação correta. Usa marcas nos lugares mais visíveis do corpo do animal, para facilitar o manejo. Não capricha no controle de parasitoses. Os mais conscientes, normalmente, orientam os empregados sobre o lugar correto de marcar, mas não há cobrança pelo certo.
Esta é hoje a realidade sobre a produção de couro no Brasil, opina o pesquisador Alberto Gomes, da Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte, da Embrapa, em Campo Grande (MS). O couro, que deveria ser remunerado, acredita Gomes, é vendido como subproduto e não há preocupação, de toda a cadeia produtiva, de melhorar a qualidade.
Segundo Gomes, 40% da depreciação do couro ocorrem na propriedade. Além da marcação errada ocorre o ataque de parasitas, riscos de arames, ferrão e outros incidentes. Os 60% restantes dos defeitos são causados no transporte, esfola e amarzenamento da pele. ‘‘Não adianta trabalhar apenas na melhoria da qualidade do processamento do couro, se quase metade dos defeitos começam na propriedade.’’
Lei desconhecidaA marca, que serve de código para a identificação dos animais, feita em local errado, é hoje um dos erros mais graves quando se fala na produção de couro de qualidade. Segundo o pesquisador da Embrapa, apenas 15% do couro produzido são de primeira categoria. ‘‘No Mato Grosso do Sul, por exemplo, Estado detentor do maior rebanho bovino de corte brasileiro, o couro de primeira não ultrapassa os 10%.’’
A marcação incorreta não é sozinha a responsável por tantos prejuízos, alerta Gomes. Há prejuízos pela falta de controle correto de carrapatos, bernes e moscas-do-chifre. O manejo inadequado dos animais próximo de arame farpado também causa prejuízos.
As marcações com os mais variados tamanhos e em regiões nobres como o cupim, paleta, quarto, anca e outros podem até facilitar a lida com os animais, afirma o pesquisador, mas danificam as peles. Ainda existem descuidos com as incisões ocorridas no transporte, além dos furos devido a esfolas incorretas, até a má-conservação da pele após o abate.
De acordo com o pesquisador decretos-leis (nº 4.854 de 12 de outubro de 1942 e nº 4.714 de 29 de junho de 1965) disciplinam o tamanho (11 centímetros de diâmetro) e a região corpórea (articulações perna/coxa, perna/paleta e cara) do animal onde as marcas ou símbolos são permitidos. ‘‘Talvez por desconhecimento da lei ou por não obterem lucro com o couro, é que proprietários conduzem aleatoriamente seus trabalhos de manejo, contribuindo para desqualificação do couro e a sua desvalorização’’, afirma Gomes.
O pesquisador alerta que o criador deve adotar tecnologias e treinar seus funcionários na melhor forma de manejar os animais. O cuidado no transporte dos animais deve ser redobrado, evitando-se acidentes no percurso. Na esfola e no armazenamento, as tarefas devem ser feitas corretamente, evitando-se perdas.
EntrosamentoNo Brasil, segundo Gomes, existem poucas tentativas para trabalhar a questão da qualidade do couro. O pesquisador da Embrapa prepara um documento, de 30 páginas, sobre alternativas para melhorar a qualidade. Recentemente, numa reunião em Campo Grande, em trabalho conjunto entre Brasil e Alemanha, discutiu-se a melhoria do processamento, com a preocupação de preservar o meio ambiente. ‘‘Mas ainda não há um entrosamento de todo o setor produtivo e sim tentativas isoladas de resolver o problema.’’
No Rio Grande do Sul uma cooperativa já chegou a remunerar o couro de animais precoces e com a pele bem cuidada, mas a empresa fechou. Em Goiás, de acordo com o pesquisador, um frigorífico está trabalhando com facas pneumatizadas para fazer a esfola. São facas sem lâmina e que no corte, por ar, não lesionam o couro.
Sem incentivosA falta de incentivos financeiros, de acordo com Gomes, é a principal causa do produtor não produzir animais com couro de boa qualidade. ‘‘No abate os frigoríficos pagam ao produtor o preço da carcaça bovina e o couro, considerado subproduto, não tem nenhuma remuneração.’’
Os frigoríficos vendem o produto aos curtumes e recebem por quilo (cerca de R$0,49/0,50). As peças são classificadas de acordo com seus defeitos.
Gomes considera que mesmo que o produtor consiga um couro de boa qualidade, pela diminuição dos defeitos causados nas propriedades, por meio de controle efetivo das parasitoses, adequação de marcas, entre outros, os benefícios serão anulados ‘‘em virtude das injúrias que estes sofrem durante o transporte, esfola, armazenamento, conservação e no próprio curtimento, evidenciando assim que, para melhorar a qualidade do couro produzido no Brasil, há necessidade do engajamento de todo o sistema produtivo num trabalho de conscientização.’’
Sem matéria-primaHá necessidade urgente, de acordo com o pequisador, de realizar um trabalho em toda a cadeia produtiva do couro. Começando nas propriedade, remunerando o produtor pela produção de couro de qualidade. Abrangendo também frigoríficos e curtumes, que poderão deixar de tratar o couro como subproduto.
O Brasil é o quarto produtor mundial de calçados, mas compra 80% da matéria-prima de outros países, para alcançar este posto. ‘‘Oitenta por cento do material usado na confecção de quase 600 milhões de pares de calçados são importados, apesar do Brasil abater 23 milhões de cabeças/ano.’’

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