A informação é do vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Máquinas Agrícolas (Anfavea) e diretor de relações externas da New Holland-Fiat Allis, Pérsio Pastore. Ele mostra, em entrevista, dados relativos à renovação do parque de máquinas (tratores e colheitadeiras) que existia no Brasil no começo da década passada e no final dos anos 90: em todo aquele período foram incorporados à frota nacional 186 mil novos tratores agrícolas (46% máquinas a menos do que ocorrera nos dez anos anteriores). Esse desempenho caracteriza uma maquinaria obsoleta e prejudicial por causar quebras de produção.
Somente na colheita, segundo cálculos do Ministério da Agricultura, as máquinas velhas deixam no chão da lavoura 10%, em média, da soja produzida. Como o Brasil produziu nesta safra 83,1 milhões de toneladas e as perdas por máquina equivalem a 10% do que ela colheu, conclui-se que foram perdidas 8.310.000 toneladas, no valor de R$299.160.000,00, considerando o preço de R$306,00 a tonelada na abertura do mercado quarta-feira desta semana.
Parque de máquinasPérsio Pastre aponta números calculados pela Anfavea, para confirmar a redução do parque de máquinas agrícolas brasileiro:
Tratores de roda adquiridos nas últimas três décadas
1970 1980 1990
409.000 348.000 196.000
Média: 18.500 tratores comprados pelos agricultores por ano, naquelas décadas. Para este ano, segundo o diretor da Anfavea e da Hew Holland-Fiat Allis, a previsão é de que sejam vendidos 21 mil tratores de todas as marcas. Para o ano que vem o setor espera demanda maior.
Em maio do ano passado o Brasil possuía uma frota de 460 mil tratores . Trinta e cinco por cento deles tinham idades que variavam de 15 a 25 anos. A frota brasileira de colheitadeiras, em maio de 99, era de 49.000 máquinas. Vinte e cinco por cento delas tinham idades de 15 a 25 anos.
No ano passado, em Esteio, RS, fabricantes colocaram lado a lado duas colheitadeiras. Uma era nova; a outra tinha 25 anos. Eram tão diferentes que nem se conseguia identificar o fabricante. As indústrias fizeram a comparação para elas mesmas analisarem, sem exposição ao público.
O sucateamento chega ao ponto de algumas marcas terem desaparecido e até fábricas terem sido fechadas. Pastre dá o exemplo da Indústria Santa Maria , do RS, que fabricava colheitadeiras de pequeno porte, especialmente para arroz. A mais procurada pelos arrozeiros gaúchos, por sua eficiência. No entanto, há mais de 10 anos, a fábrica fechou e daquela automotriz, como acontece em relação a máquinas agrícolas antigas, não existem peças novas, assim como não há assistência técnica especializada.
Puxando para baixoA média mundial de máquinas agrícolas por área é de uma máquina para 50 hectares; a média brasileira é de uma máquina para 100 hectares. ‘‘Então, o Brasil está puxando o mercado de máquinas para baixo’’, observa Pérsio Pastre.
AlternativasPor sugestão da própria Anfavea, o Governo brasileiro criou o ‘‘Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Colheitadeiras’’, com R$1,6 bilhão de recursos para renovação da frota até 2001. Esse plano oferece algumas vantagens que não eram oferecidas por nenhum plano de financiamento há 25 anos: os juros são fixos (o tomador sabe quanto vai pagar pelo empréstimo, que não é influenciado pela variação do dólar, do custo interno de vida e outros fenômenos; enfim, o produtor sabe quanto vai pagar pela máquina desde o momento em que a compra). Pastre lembra que o prazo para compra de um trator vai até 5 anos, com juros que variam conforme a faixa de renda do lavrador: se a renda vai até R$250.000,00, ele pagará 8,75%. Se a renda superar os R$250.000,00, vai pagar 10,75% de juros, sem mais nada. Para colheitadeira, o financiamento pode ser pago em até 8 anos.‘‘É o programa de financiamento mais atrativo dos últimos 25 anos’’, afirma o diretor da Anfavea.
Esse plano é para renovação de frota. Outro propõe a reciclagem das máquinas agrícolas, porém é mais complicado devido às próprias condições econômicas do País. A própria New Holland propusera em 1996, com apoio da Anfavea, um projeto que permitisse ao agricultor renovar sua frota, como já existia em outros países. Com a Fenabrave, a Embrapa, o Governo e escolas agrícolas, a Anfavea elaborou um plano de renovação e reciclagem da frota. Então, seria preciso reciclar, mas surgiu um impasse: centros de reciclagem de máquinas agrícolas seriam muito caros, calculados em US$2-US$3 milhões, e a Anfavea sugeriu que fosse adotada em primeiro lugar a reciclagem de automóveis, caminhões e similares.
A reciclagem de máquinas agrícolas viria em seguida. Porém, lembra Pastre, tirar um veículo do campo ou da rua ‘‘é um processo complexo, no qual o Brasil não tem experi6encia, pois envolve desde o transporte desses veículo à logística, e o que fazer com as sobras da reciclagem’’. Além da experiência, isso exige muito dinheiro e ainda não se sabe quando – ‘‘e se’’ – será instalada uma unidade de reciclagem de automóveis. Muito menos se sobrará nela espaço para reciclar tratores e colheitadeiras. A própria New Holland criou, no ano passado, seu próprio banco.

mockup