Máquinas agrícolas podem matar
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 1997
Cláudia Barberato 
PerigoFalta de peças de proteção expõe operador de máquina a um maior número de acidentesUm acidente com um funcionário do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), ocorrido recentemente, foi a gota dágua para que a entidade começasse um plano de alerta aos agricultores, para que tenham cuidado no manuseio do eixo rotativo de tratores.
Ao tentar retirar, com o pé, uma mangueira de pulverização que estava em cima do eixo cardan, peça acoplada na tomada de força do trator em funcionamento (alta rotação), o funcionário teve a barra da calça presa ao próprio cardan. O resultado foi a dilaceração e amputação da tíbia na altura do tornozelo direito. Se o cardan não estivesse exposto, o acidente não teria ocorrido.
Acidentes com máquinas agrícolas não são novidade. Mesmo sem estatísticas sabe-se que eles são comuns, especialmente envolvendo tratores. A máquina agrícola já é fonte de acidente por si só. Trabalhar com ela é constante risco, afirma o pesquisador da área de Engenharia Agrícola do Iapar, Ruy Casão Junior.
Ao sentar no banco de um trator, por exemplo, argumenta Casão, o trabalhador já é solicitado com uma vibração que pode causar problemas sérios de coluna. O ruído do motor atinge magnitudes que provocam surdez gradativa. O desconforto no trabalho realizado expõe ao estresse, tanto no trator como no equipamento agrícola que têm expostos vários componentes que podem gerar acidentes. Portanto, o trabalho em si é perigoso.
Reposição fica difícil. Indústrias vendem apenas peças inteiras e não em partes
ProteçãoNas máquinas agrícolas de forma geral recomenda-se proteção para todos os tipos de componentes que estejam em movimento. Exemplo: pneus têm que ter pára-lamas, o motor precisa estar numa caixa envolvida; nas colhedeiras existe chaparia protegendo. A árvore-cardan, peça das mais usadas, movimenta-se a uma rotação elevada, causando perigo e, muitas vezes, não está protegida.
A preocupação com a segurança de operadores e a necessidade de proteção fez com que a indústria de peças agrícolas desenvolvesse um sistema de proteção para a árvore-cardan, chamada de luva plástica. O problema é que a luva não é usada. A divulgação sobre a importância de seu uso é falha.
A árvore-cardan é a peça ligada à tomada de potência do trator e ao implemento agrícola. Alguns fabricantes de máquinas agrícolas no Brasil adquirem este produto importado. A tomada de potência foi padronizada, a partir de 1958, quanto a seu uso e dimensão, rotação e outros aspectos.
Há apenas dois anos, com maior frequência, é que a indústria de máquinas agrícolas está vendendo equipamentos com árvores-cardan protegidas pela luva plástica. O problema é que, para as peças mais antigas, não existem luvas plásticas apropriadas. Quem tem um trator com cinco anos de uso, por exemplo, não tem como comprar a peça. Apenas para os equipamentos novos existe opção de comprá-la.
Falta consciênciaNa maioria das vezes, segundo o pesquisador, o agricultor não está conscientizado da importância da luva plástica, e acaba usando o cardan sem a devida proteção. Os fabricantes, por sua vez, a pedido dos próprios agricultores, vendem cardan sem proteção.
Equipamentos antigos não têm peças apropriadas de proteção e segurança
Outra dificuldade no uso do equipamento, argumenta Casão, pode estar no tempo de vida útil da peça. O cardan tem um prazo de durabilidade média de cinco anos, enquanto a luva dura apenas cerca de dois anos. A final do tempo de vida da luva, ou se for preciso trocar parte dela, o agricultor também terá dificuldade de reposição. A peça é vendida somente inteira.
Para o pesquisador uma alternativa seria uma lei proibindo a venda de dispositivos sem o componente de proteção. Outro meio de incentivar o uso seria subsídio ou isenção de taxas de impostos por parte do Governo, para garantir maior segurança aos operadores de máquinas agrícolas.Obrigar fabricantes da árvore-cardan a vender os componentes da luva de proteção, separadamente, para reposição, seria outra alternativa.
TreinamentoMais importante ainda, na opinião de Casão, é criar um movimento nacional de capacitação do produtor no uso, regulagem, manutenção e cuidados na operação de máquinas agrícolas. Segundo ele, hoje existem recursos do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) que estão sendo usados para capacitação de produtores. A extensão rural, através da Emater, também tem feito trabalho neste sentido. Mas é preciso incrementar ainda mais.
Na década de 80, por exemplo, segundo Casão, houve intensificação no treinamento de produtores, com a elaboração de normas de uso, operação, regulagem e segurança com máquinas agrícolas. Depois o assunto ficou meio esquecido. Daí a importância de falar do uso adequado de todos os equipamentos e cuidado com regras de segurança do trabalho no meio rural, afirma.
DemandaDe acordo com o pesquisador do Iapar, existem outros equipamentos perigosos no campo.Mas os acidentes com a árvore-cardan sem proteção têm sido dos mais frequentes. Neste caso, concorda Casão, instituições como o Iapar poderiam desenvolver componentes de segurança para os equipamentos antigos. Os novos já saem com a opção de utilizar luva. Mas ele acredita que, devido à demanda que peças de proteção teriam a partir de conscientização dos produtores, os próprios fornecedores do equipamento (luvas plásticas, por exemplo) poderiam se ocupar de desenvolver peças para os tratores mais antigos. Basta criar demanda para uso dos componentes, e isso se faz conscientizando os agricultores do perigo de não usar equipamentos de proteção.
De acordo com o pesquisador, o Paraná tem mais de 100 mil tratores. Destes, arrisca, provavelmente mais de 50 mil máquinas usam tomada de potencial do trator, com a árvore-cardan sem proteção. Encontrar alternativas para mudar este quadro, acredita, significa um mercado potencial para fabricante de peças, já que praticamente a totalidade destas máquinas usam o cardan sem luva protetora.


