Uma atitude impensada de alguns citricultores paranaenses pode colocar em risco a produção de laranja para as próximas safras. A fruta de maior importância econômica do Estado começou a ser colhida neste mês, mas com um sinal de alerta perigoso: o aumento significativo dos casos de Greening (Huanglongbing/HLB), doença que simplesmente devasta os pomares contaminados. O salto médio de infecções foi de 5% para 10% entre o ano passado e a safra atual e, na região de Londrina, o aumento foi maior: de 9% para 16%. A doença é causada pelas bactérias Candidatus Liberibacter asiaticus e Candidatus Liberibacter americanus e transmitida para as plantas pelo inseto vetor, o psilídeo Diaphorina citri. Os números são oficiais da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar).

Mais do que a velocidade do inseto para transmitir as bactérias das plantas doentes para as sadias, uma ação irresponsável dos citricultores é peça-chave neste crescimento percentual. A explicação é simples: ao invés de eliminar as plantas doentes – seguindo a recomendação de pesquisas sólidas e a Instrução Normativa 53 do Ministério da Agricultura (Mapa) – os produtores estão utilizando tratamentos nutricionais nessas árvores. Com isso, elas dão frutos por mais dois os três anos antes de perder completamente a produtividade. Tempo suficiente para que o inseto vetor dissemine o Greening por todo o pomar, decretando, em alguns casos, o fim da atividade. A estimativa é que para cada planta identificada como portadora da doença, existam mais três infectadas.

Um erro que já causou impacto nas principais regiões produtoras do mundo. Foram exatamente estes coquetéis nutricionais em plantas infectadas – uma espécie de maquiagem agronômica – que devastaram os pomares da Flórida, nos Estados Unidos, e também no estado de São Paulo, grandes regiões mundiais produtoras. A ganância de faturar no curto prazo arrasou a atividade. "Num passado não muito distante, houve um grupo de citricultores que defendeu que seria possível a convivência com a bactéria. Então, a produção da Flórida passou de 150 milhões para 70 milhões de caixas de laranja e São Paulo caiu de 400 milhões para 270 milhões de caixas. No Paraná, nosso plantel de árvores já caiu 15% desde 2007 e a produção, que já foi de 24 milhões de caixas, hoje está em 16 milhões", salienta o coordenador de sanidade da citricultura da Adapar, José Croce Filho.

Croce não tem dúvidas de que essa atitude de "mascarar a doença" pode fazer com que os citricultores paguem um preço caro a médio e longo prazos. Por outro lado, ele diz que não foi surpresa para a Agência que os produtores fariam o mesmo procedimento. "Nós esperávamos que eles seguissem esse caminho 'mais fácil': a utilização desses tratamentos nutricionais ao invés de eliminar a planta. Mas também, para nossa felicidade, eles também descobriram que mascarando isso, a sobrevida da árvore é curta e, pior do que isso, a infestação da bactéria pode tirá-los completamente da atividade", decreta.

Como ainda não existe um combate contra a bactéria e nem plantas geneticamente modificadas que inibam sua ação, o melhor manejo continua sendo a erradicação das plantas doentes e controle rigoroso do inseto vetor com a aplicação de inseticidas. "Os que seguem essa receita têm o percentual de plantas infectadas de apenas 1%. São esses produtores, como acontece em algumas regiões, como Uraí, que estão puxando nossa média para baixo. Não fosse eles, estaríamos com a infestação nas alturas, como aconteceu em São Paulo, com 18%".

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