‘‘Produtores cometem ‘crime’ contra o meio ambiente, retomando o plantio convencional que revolve o solo num momento de estiagem e altas temperaturas, e podem provocar um desastre ecológico’’, denuncia o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Ademir Calegari depois de observar como os produtores da região de Sertanópolis (40 km ao norte de Londrina) estão preparando o solo para o plantio da safra de verão.
Além do desgaste do solo que vai resultar em queda de produtividade, esta prática provocará a ‘‘aceleração da decomposição da matéria orgânica com aumento de CO2 (dióxido de carbono) no meio ambiente, contribuindo para o efeito-estufa na atmosfera’’, explica Calegari. O efeito estufa, numa definição de publicação da Embrapa, ‘‘é um fenômeno que ocorre naturalmente no Planeta, promovendo o balanço de entrada e saída de energia’’. O aumento de concentração de gases tem provocado um aumento do efeito estufa, levando ao aumento da temperatura da terra, e provocando mudanças climáticas. Estas alterações no clima estão preocupando pesquisadores em todo o mundo. Segundo Calegari, nos Estados Unidos uma das prioridades da pesquisa é esse tema.
DesastreAs práticas de plantio convencional, que não são mais recomendadas pelos pesquisadores, desestruturam o solo. A utilização de máquinas pesadas vai compactando a terra, dificultando a infiltração de água e sua aeração. Quando as temperaturas são altas como agora, somadas à falta de chuva, o ato de revolver o solo expõe a matéria orgânica existente que é decomposta rapidamente, aumentando a liberação de gases. ‘‘Desta forma o produtor vai perdendo os nutrientes, a umidade, matando os microorganismos e contribuindo para aumentar as invasoras’’, explica Calegari.
Depois do plantio, a área que foi revolvida vai sofrer com a primeira chuva que deverá carregar parte do solo junto com o adubo aplicado. ‘‘Tudo isso é perda para o produtor e para o meio ambiente. Haverá queda de produtividade e a erosão levará terra e produtos químicos para os rios’’, comenta. Segundo o pesquisador, na região de Guarapuava, no Oeste e Sudoeste do Estado, essas práticas também estão ocorrendo e a situação só não é mais grave porque ainda não choveu.
Plantio diretoAo observar estes fatos, Ademir Calegari diz que não compreende porque os produtores ainda não adotaram o sistema de plantio direto. ‘‘Não sabemos se é falta de informação destes produtores, falta de assistência técnica, ou falta de vontade mesmo de mudar’’, comenta.
O pesquisador estranha que os produtores de uma região próxima ao instituto de pesquisa do Estado que apóia e divulga o sistema, ainda se mantenham no plantio convencional.
O plantio direto foi introduzido no Paraná em 1972, e vem se expandindo em outros Estados como solução para os problemas de degradação do solo. ‘‘Os resultados já comprovados são exelentes tanto na recuperação do solo como na produtividade’’, destaca Calegari.
Segundo o agrônomo Edson Vendrame, da Emater em Sertanópolis, o sistema começou na região há 15 anos, teve alguns avanços, mas nesta safra houve um retrocesso, com apenas 30% dos produtores fazendo o plantio direto. Na opinião de Vendrame, os produtores não enxergam a compensação do investimento a médio prazo.
ResistênciaA justificativa daqueles que resistem à mudança é a falta de dinheiro para adquirir máquinas mais potentes e esperar o retorno do investimento. Esse é o caso de Claudecir Fantin que no início desta semana arava os oito alqueires da Fazenda Santa Luzia, para iniciar o plantio da soja no verão. ‘‘Uma semeadeira custa R$21 mil e um trator bom cerca de R$50 mil. O dinheiro que consigo com a colheita mal dá para cobrir os gastos. Comprar máquinas nessas condições, nem pensar’’.
Para os produtores que acham menor o custo do plantio convencional em relação ao plantio direto, o pesquisador Ademir Calegari responde que os resultados não podem ser comparados de uma safra para a outra. ‘‘O produtor deve estar consciente de que o solo vai se desgatando e não responderá com boas produtividades ao longo do tempo. O plantio direto restabelece o equilíbrio do solo, e depois de um certo tempo o produtor verá que vai ganhar, reduzindo o investimento em adubação, ganhando produtividade e diminuindo os riscos com doenças’’, afirma.
O agrônomo da Emater lembra ainda que o manejo convencional deixa o solo desprotegido, favorecendo a dispersão de componentes químicos importantes que são arrastados pelo vento e pela água, isso sem contar as erosões. Vendrame e seus colegas de trabalho prevêem muitas reclamações no próximo verão por causa dos buracos que deverão se formar. ‘‘Vivemos um retrocesso que só se reverte com a força da lei e a insistência de programas educativos, a exemplo do que se faz em relação às queimadas’’, opinou Vendrame.
Além do manejo, o clima não tem colaborado com os produtores. ‘‘Numa situação de adversidade climática é mais importante do que nunca ter uma manejo de solo adequado para reduzir eventuais perdas’’, comenta Vendrame. Este ano o plantio já está atrasado em 10 dias, por falta de chuva.
Colaborou Betânia Rodrigues

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