Manejo de campeões
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sexta-feira, 14 de abril de 2006
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Na carteira profissional, eles são registrados como campeiros, categoria que costuma receber em torno de R$ 500,00 pelo trabalho árduo de cuidar do gado em fazendas de pecuária. No dia-a-dia, são chamados de peões, homens que ganham a vida graças ao talento para o trato dos animais. Responsáveis por vacas e touros cujo preço ultrapassa facilmente a casa dos seis dígitos, eles vivem uma vida que mescla a monotonia do campo com a aventura de acompanhar o gado em exposições.
O segredo do trabalho é a total sintonia com os bichos, que precisam ser tratados e amansados com carinho. Engana-se, porém, quem acredita que a parte mais cansativa do serviço seja dormir em barracas ao lado dos bois nas inúmeras exposições do País. Para esses trabalhadores que acordam de madrugada e enfrentam sol, vento e frio no processo de transformar bons animais em grandes campeões, os acampamentos das feiras agropecuárias acabam se transformando em locais de descanso.
Estudante do segundo ano do ensino médio, o jovem Valcir da Silva Inácio, 17, é um dos 600 peões que acompanham o gado na 46 Exposição Agropecuária de Londrina. Filho de peão, ele começou cedo na vida de cuidados com bovinos. Morador da fazenda onde o pai já trabalhava com animais, em Santa Fé, trocou a lavoura pela pecuária há alguns meses e garante que pretende mexer com gado para o resto da vida. ''Meu plano é estudar medicina veterinária'', conta o garoto que não se intimida com a rotina árdua de levantar às 3 horas da manhã para dar banho em touros e vacas que valem milhares de reais.
''É uma profissão complicada. Tem que gostar muito para aguentar o dia-a-dia'', comentou. A premiação pela vida dura vem com as exposições. ''A gente conhece bastante gente, se reveza para ir aos shows. É trabalho, mas também tem diversão'', disse Inácio, que nessa edição da 46 Exposição chegou de madrugada ao pavilhão, depois de assistir a um show, e ainda foi lavar o gado. ''A responsabilidade é nossa'', avaliou.
Outro jovem peão encantado com a profissão é Marcos Antônio Gonçalves, 19. Há três meses, ele trocou o emprego de operário numa confecção por uma vaga na fazenda de gado de elite em Alto Piquiri. A mudança trouxe grandes transformações. Além da descoberta de uma vocação, ele passou a morar longe dos pais, que continuaram na cidade. ''Divido uma casa com meu primo na fazenda'', revelou.
Na propriedade dos patrões, ele amansa o gado, alimenta e dá banho. ''A melhor parte é pegar o bicho 'pagão' e deixar mansinho'', conta. Na Exposição, sua maior obrigação é evitar que os valiosos bovinos se sujem antes de se apresentarem nas pistas de julgamento. ''Não posso descuidar''.
Totalmente sintonizado com os animais, ele agradece por trabalhar em uma propriedade que cria apenas animais para reprodução. ''Ainda bem que não tem abate. Eu jamais comeria a carne do gado que cuido. Fico com dó até quando eles são vendidos'', afirmou. A vitória dos animais na pista de julgamento é motivo de comemoração. ''Fico contente, porque ajudei a prepará-los''.


