Maringá - Os mandiocultores do Paraná iniciaram um processo de organização do setor na busca de um preço mínimo para custear o plantio de raiz. Há vários anos, os produtores trabalham sem parâmetros definidos e ficam sujeitos às crises do mercado. A falta de organização do setor mandioqueiro também provoca oscilações gritantes como no ano passado quando o Paraná atingiu pela primeira vez na história a maior produção nacional - 4,5 milhões de toneladas - mas quase um milhão de toneladas de raízes ficaram na terra porque a indústria não conseguiu absorver a demanda.
Outro disparate no setor ocorreu com o preço pago ao produtor. No ano passado, a indústria chegou a pagar R$ 140,00 pela tonelada da raiz, mas este ano o preço ficou em torno de R$ 35,00. Os problemas se ampliaram com a seca dos últimos dois meses na região Noroeste do Paraná, uma das maiores produtoras de raiz para a indústria de fecularia. A terra seca dificulta a retirada da mandioca deixando as indústrias sem matéria-prima para o processamento.
Produtor x indústriaUma das maiores interessadas na organização do setor é a Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca (Abam), sediada em Paranavaí. A entidade reúne 33 associados do Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul, sendo 31 de grupos industriais de amido e outros dois fabricantes de máquinas e equipamentos para o setor. A mandiocultura é uma das atividades que mais depende do equilíbrio entre produtor e indústria, mas só agora inicia um caminho para determinar vínculos que beneficiem os dois lados.
Segundo o presidente da Abam, Maurício Yamakawa, a associação tem diversas frentes de luta. As duas principais são a determinação do preço mínimo e inclusão do amido na panificação (ver box). Este ano, a entidade organizou diversos eventos técnicos para mostrar ao Governo Federal que os atuais R$ 31,00 não atendem a necessidade do produtor cujo custo médio variável para a produção de uma tonelada de raiz de mandioca é de R$ 40,90.
Preço mínimo
Yamakawa diz que a associação busca um preço mínimo de R$ 45,00, no entanto, vai oferecer contratos diretos com o produtor de R$ 60,00. ‘‘Queremos que o governo chegue aos R$ 45,00, mas a própria Abam já estabeleceu o preço de R$ 60,00’’, reforça o presidente da Abam.
O preço mínimo está sendo elaborado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e deve ser publicado no Diário Oficial da União até o mês de agosto para entrar em vigor em 2003. Até agora, porém, a Conab não acenou para os R$ 45,00 tentando ficar no máximo em R$ 41,00. ‘‘O governo quer que o mercado flua naturalmente para que o preço mínimo sirva apenas de referencial’’, diz o analista de mercado da Conab em Brasília (DF), Asdrúbal de Carvalho Jacobina. Para os produtores a definição de um preço justo ajuda na reformulação dos créditos agrícolas. Atualmente, os financiamentos não levam em conta as peculiaridades do setor mandioqueiro e o governo determina créditos nas mesmas condições de culturas de verão como milho e soja.
Desequilíbrio
Segundo o produtor Bráulio Boletta Filho, o aumento da área de plantio, a redução da demanda das fábricas de farinha de mandioca ( o Nordeste que era grande consumidor de raiz destinada a farinha e se tornou auto suficiente) e o fato do governo ter retirado a farinha da cesta básica, desequilibraram o setor produtivo desde 2001. Para tentar unir os interesses, Boletta Filho está organizando a primeira associação dos produtores de raiz. Uma comissão provisória marcou para maio a primeira assembléia. ‘‘Estamos tentando promover a união do produtor para que possamos estabelecer vínculos interessantes com a indústria’’, conta Boletta Filho.
O produtor explica que o custo médio para a produção de 65 toneladas em um alqueire é de R$ 3 mil. Conforme Boletta Filho, é preciso levar em consideração condições como terra própria ou arrendada, uso de maquinários e transporte da colheita. ‘‘Não é todo o produtor que consegue uma produtividade de 65 toneladas por alqueire porque sem os devidos cuidados a produção cai em até 20%’’, diz Boletta Filho.

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