Mais fácil entender do que sair da crise
José Filippon
‘‘Agropecuária é alternativa de curto prazo para retomar o desenvolvimento’’. Não há unanimidade maior do que contra os erros do passado. A crise pode ser creditada aos desgovernos que nos perseguem, desde o nosso descobrimento. Felizmente, não temos exclusividade sobre este produto. A experiência dos países atingidos por profundas crises em suas economias, como México (94), Tailândia, Indonésia, Malásia e Coréia do Sul (97), e Rússia (98), precisa ser analisada e contraposta à realidade, na busca de uma resposta às incertezas que nos preocupam e intrigam.
Sabemos que é mais fácil entender como chegamos a esta situação, do que visualisarmos a forma com a qual sairemos dela. Imaginando que a história se repete, vamos adentrar numa análise, mesmo que superficial, dos problemas que os países citados apresentavam no período que antecedeu a crise.
Pela ordem cronológica. O México controlava a flutuação da moeda (peso) com um sistema de bandas, contabilizando um déficit em conta-corrente de 8% do PIB, com reservas em moeda estrangeira em queda livre - despencaram de US$25 bilhões para US$ 17 bilhões, em apenas um mês, em novembro de 94. Com a Tailândia, Indonésia, Malásia e Coréia do Sul, o quadro reproduzia traços comuns: crescente déficit comercial e câmbio fixado em dólar, aliados a um baixo crescimento do PIB.
Por último, a Rússia trazia uma combinação de economia frágil, aliada a um déficit público de 7% do PIB e taxas de juros mais altas do mundo (150% ano). Situação fragilizada ainda por reservas de apenas US$15 bilhões e sistema de bandas cambiais.
Para enfrentar a crise, todos os países prescreveram, em linhas-mestras, um receituário semelhante: desvalorização da moeda, liberação do câmbio, queima de reservas para proteger a moeda nacional e um forte aumento das taxas de juros.
Buscando tirar lições da desgraça alheia, agora à nossa porta, observa-se claramente que, num primeiro passo para vencer a crise, os países caíram num cenário nada promissor, com a falta de credibilidade interna e externa. A receita imposta pelo FMI provocou uma recessão aguda, com sensível aumento do desemprego e encolhimento do PIB.
Nenhum dos países em questão conseguiu enfrentar a crise sem sacrifícios. Quebra de empresas e bancos endividados em dólar, redução do volume de exportações, com certa estabilidade cambial, são marcas encontradas nos países vítimas da crise.
Da observação destes países, visualiza-se o chamado ‘‘ganho perverso’’, que pode servir de parâmetro para nossas turbulências. Transferida para nossa realidade, a experiência comprova, por exemplo, que a cada 1% de desvalorização, há um aumento equivalente no estoque da dívida líquida do governo. Baseados em estudos internacionais, podemos projetar a inflação, que aumentará na ordem direta da desvalorização cambial.
Nestas contas, uma desvalorização de 30% geraria uma inflação estimada em 11%. Para 35% de desvalorização, teríamos uma inflação de 13%. Com 40%, teríamos uma inflação próxima de 20%. E 70% de desvalorização projetaria uma inflação de 41%. Por fim, num cenário pessimista de 100% de desvalorização, nossa inflação atingira 70% ao ano. Do lado positivo, a cada 1% a menos de juros, reduz-se a dívida em 0,25% do PIB. Em contrapartida, a cada 1% a mais de inflação, gera-se uma melhora líquida de 0,14% do PIB sobre as contas públicas.
À primeira vista, o receituário do FMI, a exemplo do que aconteceu nos países analisados, provocará uma sensível queda da atividade econômica com grandes possibilidades de retorno da inflação, jogando pelo ralo os ganhos e conquistas até aqui contabilizados pelo Brasil. A primeira tarefa é praticar a austeridade fiscal. Gastar apenas o que se arrecada. E buscar a redução das taxas de juros, além da tão almejada reforma tributária.
O Brasil encontra-se ainda no início da transição e não está muito claro quais são as inclinações ou prioridades do governo. A falta de iniciativa de nossos governantes preocupa a todos, quando sabemos que precisamos crescer pela via da produção e do emprego. O pior ambiente é o que resulta da paralisia. Precisamos extrair exemplos das economias asiáticas, onde encontramos impressionantes lições de ajuste econômico rápido e ofensivo.
Precisamos, acima de tudo, saber tirar proveito de alguns trunfos de que o Brasil dispõe, em relação aos demais países vitimados pela crise. Com dimensões continentais e milhões de hectares de terras férteis a serem incorporadas ao processo produtivo, o Brasil precisa encarar o setor agropecuário como alternativa de curto prazo para alavancar a retomada do desenvolvimento.
Engessada até aqui no papel de âncora do Plano Real, a agropecuária pode vir a desempenhar papel decisivo como agente ativo da retomada do processo de crescimento e geração de empregos.
O autor é presidente da Associação Comercial e Industrial de Cascavel.

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