A pequena propriedade rural no Paraná tende a desaparecer se não houver políticas públicas voltadas para o planejamento da agricultura familiar. O censo agropecuário do IBGE de 1995, divulgado no mês passado, revelou o início desse processo ao constatar a perda de 100 mil propriedades nos últimos 10 anos e o agravamento da concentração da propriedade. A tendência revela que a pequena propriedade será excluída ainda mais, para dar lugar às grandes propriedades.
Essa tendência não surpreendeu o diretor do Departamento de Economia Rural (Deral), órgão da Secretaria da Estadual Agricultura e do Abastecimento (Seab), Norberto Ortigara. Para ele esse resultado era esperado em função da perda de quase um milhão de hectares de área agricultável nesse período. O Paraná perdeu muitas propriedades agrícolas em função de alagamentos para construção de hidrelétricas, aumento da urbanização, estradas e transformação de áreas agricultáveis em áreas lazer, para entretenimento.
InversãoAo contrário do que se esperava, quando o crescimento da pressão social pela reforma agrária apontava para uma repartição das propriedades, o que houve foi exatamente o contrário. Ou seja, na realidade ocorreu o movimento inverso de aglutinar as propriedades, resultado que refletiu no censo agropecuário, disse Ortigara. A inversão nas expectativas foi provocada pela falta de escala de produção que levou o médio e grande produtor a buscar de forma insistente a produtividade, como arma para sobreviver com a agricultura.
A consequência desse processo foi o êxodo rural, que provocou a saída de 570 mil pessoas que eram ocupadas com agricultura. A população rural no Paraná caiu de 1,85 milhão pessoas em 1985, para 1,28 milhão pessoas ocupadas no campo. Essa transformação foi alavancada pela implantação da mecanização em lavouras que eram 100% manuais como cana-de-açúcar, café, algodão. E também pela queda acentuada de lavouras de café e algodão que empregam grande número de mão-de-obra. Outra transformação em andamento que deverá provocar expulsão de mão-de-obra no curto prazo é a introdução de mecanização na colheita, prevê.
Falta rendaOrtigara acredita que o Paraná vai chegar a ter em pouco tempo, apenas 10% de sua população no meio rural. Ele atribui esse movimento à falta de renda no campo suficiente para o sustento da família. Em função disso, quem está ficando no campo está envelhecendo e os membros novos das famílias estão saindo da propriedade.
Conforme análise de Ortigara, em 1970 o censo agropecuário revelava que 53% das propriedades tinham até 10 hectares e detinham 10,8% da área rural. No último censo, esse percentual baixou para 42% para as propriedades com até 10 hectares e a área ocupada por elas caiu para 5% da área agricultável do Estado. Por outro lado, em 1970 os estabelecimentos com mais de 100 hectares constituiam apenas 3,3% em relação ao número total de propriedades. A concentração dos estabelecimentos superou essa posição em mais de 100% e hoje, 7,3% dos estabelecimentos rurais têm mais de 100 hectares.
Na outra ponta, as propriedades acima de 100 hectares que detinham 47% da área ocupam agora 61% do espaço agrícola paranaense, que corresponde a 9,7 milhões hectares. Ortigara observou que as propriedades médias também perderam área e cresceram em número. Nesse segmento ocorreu elevação no número de estabelecimentos administrados pelo proprietário, revelando que a redução de pessoal ocupado com a agricultura afetou mais os parceiros e arrendatários e menos os proprietários que se mantiveram na atividade administrando a propriedade com a colaboração de membros não remunerados da família, justificou.
ConcentraçãoA concentração da propriedade rural reduziu para 34% o espaço ocupado com lavouras e cresceu a área com pastagens cultivadas para 5,5 milhões de hectares. Entre 1985 e 1990 houve um crescimento expressivo em função do ciclo pecuário favorável, mudança no conceito de criação de gado com introdução de técnicas de confinamento, superalimentação de animais que pastam em áreas pequenas. A melhoria na condição da pecuária de corte refletiu no aumento do rebanho bovino do Estado, que hoje soma 9,9 milhões de cabeças. Para Ortigara, a redução das áreas de lavouras está associada ao endividamento do setor iniciada na década de 90, quando os agricultores ficaram desiludidos com a produção de grãos. Também está relacionada com o crescimento de áreas com matas e florestas cultivadas. Hoje 18% da área agrícola, que abrange 2,8 milhões de hectares, são ocupados por reflorestamentos.
O rítmo dessas transformações revela que elas não se esgotaram. Agora há uma tendência de ocorrer uma diversificação maior da propriedade. O Paraná está ampliando a área cultivada com frutas, hortaliças. Até as lavouras de café estão sendo recuperadas, dentro de um processo de diversificação da propriedade. Mas Ortigara acredita que esse processo será lento daqui para frente. Para ele, o Paraná vai continuar sendo o grande produtor de grãos e por algum tempo ainda o primeiro produtor de soja e milho, apesar da expansão da pecuária em andamento.
No Paraná tem um número expressivo de propriedades que não são competitivas por falta de produtividade, escala, e eficiência tecnica-econômica.‘‘Essas, precisam de assistencia social e apoio do poder público para que a população não seja excluída’’, avaliou. Em compensação, cerca de 60% a 70% dos produtores rurais estão em outro extremo que conhece, compra, emprega tecnologia e mobiliza recursos para isso. Enfim, a maioria da população rural paranaense está na fase de transição de uma agricultura de subsistência, para uma fase mais moderna, competitiva, que emprega insumos, mas precisaria ganhar mais escala, mais eficiência para continuar existindo, resumiu.ArquivoMesmo com a pressão social pela reforma agrária, pequenas propriedades estão desaparecendoVânia Casado

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