Proteção ambiental, aumento na produção de carne ou leite e rendimento extra com a venda de madeira. Este pode ser o resultado da implantação do sistema silvipastoril, segundo o agrônomo da Emater-PR, Vanderley Porfírio da Silva. Ele desenvolveu pesquisas sobre este sistema de produção no arenito do caiuá, no Noroeste do Paraná, que virou tema de sua tese.
A pesquisa propõe, além de recuperar pastos com culturas anuais, cultivo de espécies florestais, que serão vendidas pelo produtor aumentando sua lucratividade. Silva garante que a alternativa aumenta a produtividade do gado, melhora a rentabilidade das áreas de pastagem e as condições do solo.
O inédito do trabalho de Silva é o cultivo de árvores nas curvas de nível das culturas anuais para recuperação de pastos e, depois da colheita, semeadura de novo pasto para a criação de gado de corte ou de leite na mesma área. Hoje, na região do arenito, a recuperação de pastagens já está sendo feita, mas apenas com o plantio de culturas anuais.
Maior suporte Resultados obtidos em áreas de produtores do arenito caiuá, no Noroeste do Estado, segundo o agrônomo, indicam um aumento de 30% na taxa de lotação das pastagens. ‘‘Há propriedades onde o aumento na capacidade chega a 43%. A adoção do sistema, garante Silva, através da melhoria dos pastos, faz com que vacas de leite, por exemplo, produzam até 20% a mais.
Na pecuária de corte, segundo o agrônomo, os dados são mais escassos. ‘‘Mesmo assim, numa média, além do aumento no número de animais por área, pode-se conseguir melhoria de até duas arrobas por hectare/ano de carne.’’ Para a pastagem, o plantio de árvores protege contra geada e há disponibilidade de alimento por mais tempo durante o ano para os animais.
No caso das árvores plantadas em pastagens a temperatura dentro do ambiente é mais quente no inverno e, no verão, pela sombra, é mais amena e proporciona conforto térmico aos animais, o que influencia diretamente na produção de carne ou de leite. O manejo antecipa boas condições para a reprodução em fêmeas que crescerem nesses sistemas (acesso indistinto à sombra).
Nas áreas com espécies florestais durante o verão, quando a temperatura ultrapassa os 35 graus centígrados, à sombra das árvores há uma queda de até oito graus. Durante o inverno, sob as árvores, as geadas também atingem as pastagens em menor intensidade.
O sistema resulta na produção de pelo menos 100 m3 de madeira para serra por hectare, em ciclos de 14 anos, sem contabilizar galhadas e pontas para lenha. A fertilidade do terreno ganha com a reciclagem das folhas das árvores. Em algumas propriedades o teor de potássio aumentou 15% ao longo de oito anos, nas áreas de pastagens com árvores, e há o controle ‘‘efetivo’’ da erosão.
Mudança na economia O agrônomo sugere que o produtor adote um sistema de manejo compatível com seus objetivos. ‘‘Para isso precisa de orientação de um técnico. O plantio de árvores vai exigir novas práticas, como o desbaste das plantas na época adequada. É preciso escolher bem a espécie. A produção de madeira pode levar de oito a doze anos. Já as espécies que produzem lenha podem garantir retorno em quatro anos.’’
O indicado para cultivo são espécies como a grevilha, kiri, canafístula, eucalipto, pinos, cinamomo gigante ou pinho cuiabano, nas curas de nível na área de pastagem. A oferta de sombra se espalha por toda a propriedade evitando que os animais se concentrem num local prejudicando o desenvolvimento do pasto em virtude do superpastejo ou pisoteio.
As áreas de pastagem passariam a ter sua produção e sustentabilidade favorecidas pela melhoria ambiental e economia de recursos (aumento da vida útil dos pastos influenciando nos cálculos de custos). Em regiões com alta concentração de pastagens, como no Noroeste paranaense (mais de 50% de suas terras com pastagens), o sistema silvipastoril pode representar aumentos consideráveis não só da rentabilidade da propriedade, mas da região onde está localizada.
‘‘Pode favorecer a industrialização da região através de disponibilidade de matéria-prima em maior quantidade (devido ao aumento da capacidade de suporte dos pastos) e diversidade (produção de madeira que atualmente não existe e, com custos de produção muito inferiores aos de outras regiões do Estado, dada as condições ambientais favoráveis ao crescimento florestal e à facilidade de extração), promovendo um aumento na oferta de empregos direto e indiretos via incremento de cadeias produtivas.
Plantio escalonado O agrônomo aconselha que os produtores escalonem a recuperação de pastagem e o plantio de árvores. ‘‘O rendimento da lavoura comercial na recuperação de pastos paga o plantio das espécies florestais num período de um ano e meio a dois anos,’’ garante.
As árvores devem ser plantadas em linhas, sob as curvas de nível, numa distância média de 30 metros. Nessa faixa, entre as árvores, o produtor pode plantar lavouras de mandioca, milho ou amendoin, no caso do Noroeste. A lavoura vai melhorando o solo, eliminando as invasoras das pastagens e as árvores vão crescendo nas curvas de nível. Quando chegarem a um certo porte, em que o gado não prejudicaria o desenvolvimento, pode-se semear nova pastagem.
Resistência O agrônomo alerta que a falta de informação e conhecimento, por parte dos produtores, extensionistas e técnicos, pode dificultar a implantação do sistema. ‘‘Falta conscientização sobre a necessidade de proteger o rebanho e os pastos contra os extremos climáticos.’’
As instituições de assistência técnica, segundo Silva, sempre estiveram focados no desenvolvimento de sistemas de uso das terras de modo exclusivamente unidisciplinar (ou florestal, ou agrícola, ou zootécnica). A sustentabilidade, que é possível através de sistemas silvipastoris, avalia o agrônomo, deve ir além dos aumentos na produção, melhoria de condições ambientais e da qualidade de produtos pecuários. ‘‘A qualidade de produtos oriundos desse sistema pode promover parcerias para a produção e comercialização, por exemplo, do leite, da carne, da madeira. Todos sob a idéia de produtos ambientalmente mais corretos.’’
O sistema, avalia Silva, deverá depois de implantado modificar a situação da região onde estão instaladas as propriedades que o adotarem. ‘‘‘É possível reverter a evasão de rendas.’’ Na região do Arenito, por exemplo, as propriedades foram reduzindo suas atividades depois do declínio do café e concentraram-se em criação de gado. A degradação das pastagens hoje força a recuperação de áreas. ‘‘É preciso melhorar a produção de carne. A alternativa de produzir madeira de alta qualidade, para fins nobres, demanda toda uma nova cadeia produtiva para a indústria de madeira, gerando mais empregos e agregação de renda ao pecuarista.’’
Silva trabalhou durante um ano em algumas propriedades nas regiões de Umuarama e Paranavaí. Na maioria delas, onde o produtor já adotou o silvipastoril, a opção foi primeiro pela beleza. ‘‘Normalmente os produtores não têm o controle de dados econômicos a partir da adoção do sistema. Mas falam que o pasto melhora; que no início os garrotes sofrem menos, entre outras observações.’’
O trabalho, segundo o agrônomo, só foi possível graças a uma parceria firmada entre Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Embrapa Florestas, Universidade Federal de Santa Catarina e Emater-PR.

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