Luz no fim do túnel
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sábado, 29 de novembro de 2003
Célia Guerra<br>Reportagem Local 
A crise do café brasileiro não tem data para acabar. Os preços praticados pela cultura nos últimos três anos, segundo o corretor da Bolsa de Cereais de Londrina, Marcos Aurélio Bacceti, estão abaixo da expectativa dos produtores. A correção de preços das commodities agrícolas, afirma, passou por todos os produtos, menos o café.
''Na história recente do café nunca houve uma crise tão forte e que causa tanta preocupação como a que estamos passando'', afirma. O mais grave, avalia, é que não houveram fatos relevantes na cultura que justificassem os preços ruins. ''Não há excedente de produção, as safras, por enquanto, estão sendo suficientes para a demanda de mercado'', garante.
Bacceti faz uma análise dos preços obtidos pelo café durante o ano de 2003 e destaca que não houve grandes oscilações. De janeiro a novembro a média esteve entre R$ 152,00 a R$ 173,00 a saca. O maior pico ocorreu em fevereiro quando o produto alcançou o valor de R$ 173,00/sc.
Os mercado do grão, explica Bacceti, sofre ''especulações sem precedentes'' vindas do mercado externo que regula os preços de comercialização com forte influência no mercado interno. Com o café arábica, por exemplo, não há cotações desvinculadas da Bolsa de Nova York.
Nos últimos dez anos, continua o corretor, o preço de varejo do café nos países consumidores sofreu alterações que não chegaram até a ''ponta inicial'' da cadeia: o produtor. Ele lembra que em 1997, no boom do café, o produto chegou a ser comercializado a US$ 300,00/sc. ''A ponta final, o varejo e as grande redes de café, devem estar com ganhos extremos'' presume.
O cenário atual da cafeicultura, de acordo com o corretor, são produtores desestimulados e sem recursos para aplicar no manejo correto das lavouras. Bacceti faz mais um ''grito de alerta'' sobre o que ele nomina como ''farra dos insumos''. Os reajustes desses produtos não possuem parâmetros e estão acima dos índices inflacionários.
''É preciso um controle desses preços'', destaca. O resultado não exige análises de experts: ''nossos cafezais estão depauperados, com déficits nutricionais, produtividade em queda e, como consequência, custo de produção elevado'', resume.
A crise, entretanto, não é privilégio do café brasileiro, ela é mundial. A baixa remuneração atinge mais produtores, como os de outros países da América e Ásia. Bacceti destaca que a falta de recursos para melhorias no manejo já aponta para queda na produção a partir da safra que está nos cafezais. ''A estimativa é de um déficit de 8 milhões de sacas no total consumido'', informa.
Com isso, o corretor espera, num futuro próximo, o retorno dos bons preços regidos por uma lei ''primária'' do comércio: a da oferta e da procura. ''Não dá para apontar datas'', limita-se a dizer.
Enquanto isso, o governo brasileiro tem promovido ações de apoio como o prorrogação dos pagamentos dos custos de plantio por mais 60 dias. ''Auxilia mas não resolve'', afirma.
Bacceti critica ainda a ''ação restrita'' dos contratos de opção. Durante esta semana os produtores que decidiram vender para o governo estavam conseguindo R$ 195,00 por saca para pagamento na primeira quinzena de dezembro. O benefício, entretanto, só vale para os cafés tipo 6, bebida dura, considerados de alta qualidade. ''Para ser mais abrangente deveria prever também os tipos mais fracos, como a bebida rio'', opina.
Apesar disso, Bacceti diz que, ''o produtor brasileiro é fantástico! Não há quem encare tantos desafios''. Assim, ele aponta os novos nichos de mercado que estão surgindo como os cafés especiais cereja natural e cereja descascado e os orgânicos. Mas a adoção do sistema produtivo exige também tratamento especial, com muitos cuidados do plantio até a entrega final. ''Os preços são bons, tem mercado e o volume ainda é pequeno''.
''A pior crise em qualquer setor é a de preços, especialmente no setor produtivo'', resume.
A crise do café tem uma sobrevida que não ocorre nos produtos anuais. No café, as consequências da falta de investimento neste ano, por exemplo, não são neutralizadas por um melhor tratamento no ano seguinte. É que a planta leva até três anos para se recuperar completamente.


