Lucro dos supermercados revolta suinocultores
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sexta-feira, 23 de agosto de 2002
Marta Medeiros<BR>Equipe da Folha 
Maringá - O baixo preço pago ao produtor de carne suína está desequilibrando a atividade no Paraná. Desde o final de janeiro, os custos de produção aumentaram, mas o excesso oferta da carne no mercado reduziu o preço do quilo somente aos suinocultores. O reflexo da baixa, porém, ainda não beneficiou o consumidor. A situação para o produtor se complica porque enquanto o custo para se produzir um quilo da carne suína gira em torno de R$ 1,30 a R$ 1,35, os frigoríficos pagam entre R$ 1,05 e R$ 1,10.
Já os supermercados adquirem a carne por R$ 1,85 o quilo, mas o preço praticado na venda ao consumidor é quase o mesmo de quando o valor era de R$ 2,20. Na hora da compra, o quilo da costelinha é em média R$ 5,00 e o da bisteca a R$ 4,00.
''A situação é revoltante porque quando há aumento, o repasse é sempre feito de imediato ao consumidor, mas no recuo não existem reflexos positivos pois os supermercadistas não abrem mão da alta margem no lucro'', diz o médico veterinário Bruno Wernick que dá assistência direta aos suinocultores das regiões Norte e Noroeste do Estado.
Wernick explica que o excesso de carne suína no mercado se deve a quebra da Argentina, que era o maior importador do produto brasileiro. Além disso, o aumento no número de fêmeas provocou uma superlotação de animais nas granjas porque até janeiro deste ano o preço pago ao suinocultor era razoável e incentivava a atividade. ''A alteração do dólar também prejudicou porque aumentou em muito o valor dos insumos, a maioria baseada na cotação da moeda americana'', diz o veterinário.
Segundo Wernick, a situação precisa ser revista de imediata porque o aumento no preço da saca do milho - principalmente pela redução na área de plantio - deve inviabilizar ainda mais a produção de carne suína. ''O milho é responsável por 60% da ração e a falta de alternativas para a alimentação do animal reduz as perpectivas de baixa no custo da produção'', explica ainda o veterinário.
Para Wernick, o ideal seria o incentivo do consumo, aproveitando a alta oferta e a viabilidade de baixa nos preços, com o pagamento justo ao produtor. ''Quem sofre mais são os pequenos produtores responsáveis pela maior parte dos oito mil porcos espalhados pelas granjas do Noroeste do Estado'', afirma o veterinário.
Wernick lamenta o descaso com a atividade porque teme as implicações sociais. O veterinário conta que a maioria dos granjeiros tem até 100 matrizes e emprega os próprios familiares na produção. ''Muitos tentam sobreviver da atividade, mas uma boa parte utiliza as granjas como complemento de renda para aguentar o intervalo das safras'', completa.
Para o presidente na Região Noroeste da Associação Paranaense de Supermercados (Apras), Carlos Alberto Tavares Cardoso, a situação é mesmo incomum porque o mercado nunca teve tanta oferta de carne suína. ''Nos últimos 30 dias, verificamos uma grande oferta e toda semana vemos promoções da carne nos supermercados, o que antes era mais difícil de ocorrer com relação aos suínos'', diz Cardoso.
Cardoso acredita que a médio prazo o consumo pode aumentar ainda mais, porque até então o preço da carne suína não era acessível. Segundo ele, a entidade tem consciência da situação dos produtores, mas não se sente responsável direto pelo problema por causa da existência de outros fatores como a própria alta do dólar. ''No futuro a remuneração pode ser melhor porque o consumidor está adquirindo o hábito de comprar carne suína e estamos aptos para incentivar o consumo'', afirma Cardoso.


