Lição das borboletas




Tarcísio Vanderlinde

A historiografia tradicional tem chamado aqueles anos de pioneiros, numa referência ao avanço das frentes agrícolas contemporâneas que foi presenciado na região a partir dos anos 40. No entanto, a vida que constrói a história já se manifestara aí bem antes, há muitos séculos, há alguns milênios talvez.
Naquelas ondas recentes das frentes agrícolas, junto a outras tantas famílias, também chegou a nossa, ainda bem no início dos anos 60. Diferentemente dos outros pioneiros, meu pai não veio com a intenção de se dedicar à agricultura, muito embora tivesse oportunidde de fazê-lo. Meu pai veio para ser professor em Mercedes Nova (PR), e por esta profissão que abraçou ainda é incontestavelmente reconhecido até hoje. De qualquer forma, para complementar o sustento da família, ele, minha mãe e nós filhos, à medida que íamos crescendo, puxávamos bastante o cabo da enxada, numa pequena área, que meu pai comprou. Ali chegamos a criar alguns porcos, galinhas, e por muito tempo tínhamos uma ou duas vacas de leite para consumo próprio.
A primeira bicicleta de criança que eu me lembre, era a minha. Não era nova, meu pai havia me dado no último ano que moramos em Santa Catarina. Com ela eu andava por toda a parte. Fui muitas vezes pedalando até a ‘‘barra’’, onde morava meu tio. E nessa época, a exemplo de outros tantos meninos e meninas de minha idade, caçávamos borboletas, para vender para o Schmetterling Mohr.
Naquele tempo, todos em Mercedes conheciam o Schmetterling Mohr. Este apelido lhe indicava a origem familiar e a atividade a que durante muito tempo se dedicou em Mercedes. Em algum canto da minha memória ainda permanece indelével o cheiro das borboletas que pegávamos com ‘‘coador’’ nas picadas e levávamos para vender para seo Mohr dentro de caixas de sapato. Guardo na mente a imagem, vendo seo Mohr colocar azulões, azulinhas e bocas-da-noite dentro de cartuchos que posteriormente ele revendia e encaminhava para São Paulo ou para o Exterior. Era o que eu podia concluir. No entanto, era na confecção de quadros artísticos com asas de borboleta que a atividade de seo Mohr mais se destacava, sendo que muitos desses quadros ainda podem ser vistos e encontrados nas paredes de muitas casas em Mercedes e arredores.
A história do Schmetterling Mohr nos remete a um passado recente e bonito em Mercedes. A atividade artesanal que gerava empregos, por motivos de desordem ambiental não se sustentaria e nem caberia mais neste início de milênio. Porém, é uma história que provoca reflexão num momento em que esta comunidade, agora autônoma, enfrenta os desafios dos novos tempos.
Já não há borboletas para a criançada pegar. O trabalho do seo Mohr ficou para a história, porém ainda joga luz para os tempos presentes. A pergunta é: a lição das borboletas pode ainda ensinar alguma coisa, passar ao futuro desta comunidade? Num esforço de reflexão, poderão aparecer algumas respostas curiosas com significado bastante consistente diante dos novos desafios que aí estão postos. Ou será que não há desafios?
Fico imaginando, na discussão dos transgênicos, já que ali há muita coisa para responder ainda, se não estariam surgindo boas perspectivas em termos de agricultura familiar, atividade ainda tão significativa na economia de Mercedes e em outras comunidades deste porte. ‘As vezes é preciso lembrar que a agricultura orgânica, que se encaixa de modo especial na pequena propriedade, e que muitos ainda sabem fazer, está em falta e abre a cada dia novos e promissores mercados. Eu diria que este caminho, além de sinalizar para inúmeras possibilidades econômicas, gera empregos, torna o ambiente mais saudável, melhora a vida e pode até trazer as lindas borboletas de volta, e certamente não desapareceram porque as caçávamos.
O autor é professor da Unioeste.

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