Liberação de uso ainda não saiu
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sexta-feira, 29 de agosto de 1997
Cláudia Barberato 
O coordenador do Programa Nacional de Controle de Resíduos Biológicos em Produtos de Origem Animal (PNCRB), da Secretaria de Defesa Animal do Ministério da Agricultura e Abastecimento, Francisco Bezerra da Silva, afirma que a liberação do uso de anabolizantes no rebanho brasileiro depende somente de uma decisão política.
Para isso o ministro da Agricultura, Arlindo Porto, teria que revogar a Portaria 51, de novembro de 1991, que proíbe o uso. Hoje há pressão de técnicos e pecuaristas para liberação. De outro lado órgãos como o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) são contra a liberação; ou ainda não se posicionaram sobre o assunto.
Na Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), segundo o presidente da entidade, Antônio Russo Neto, a meta é atender as exigências do cliente, no caso, a Europa, que não compra carne de gado tratado com anabolizantes.
EUA x EuropaDe acordo com Russo, a Abiec congrega indústrias que movimentam US$ 300 milhões por ano, na venda de 270 mil toneladas; 80% das vendas são para a Europa. É flagrante a discussão entre os Estados Unidos e a União Européia, mas não podemos contrariar nosso cliente que é a UE. Os Estados Unidos não compram a carne brasileira, mas querem nos vender anabolizantes.
Ele considera que o Brasil está no meio da disputa entre os Estados Unidos e a União Européia até com certa vantagem, já que a Europa continua comprando carne do País. A nível de exportação, Russo considera que a liberação do uso de anabolizantes possa ser péssimo para o Brasil porque vai-se perder o tradicional comprador de carne que é a Europa.
BenefíciosOs anabolizantes estiveram registrados no Brasil de 1976 a 1986, como implante nas orelhas dos animais, e, segundo Bezerra, não acarretaram grandes problemas. Funcionam como controladores de natalidade e auxiliam para o ganho de peso, ou conversão mais rápida. Mas funcionam bem se o animal for bem alimentado, vacinado, desvermifugado, desparasitado, mineralizado, entre outros manejos, principalmente em criações confinadas ou semiconfinadas.
Bezerra conta que os anabolizantes são usados em vários países como Estados Unidos, Argentina, Austrália e Nova Zelândia, como incremento de ganho de peso dos animais para idade de abate aos 18/20 meses. A utilização no Brasil poderia acelerar a idade de abate dos rebanhos, hoje na média de quatro anos.
Custo x BenefícioUm estudo do Sindicato Nacional dos Pecuaristas indica que o anabolizante dá um retorno econômico estimado de, no mínimo, US$6 por US$1. Nos Estados Unidos este retorno sobe para US$ 8/10 por US$1, em diversas fases de criação. No Brasil, o uso do produto pode aumentar a taxa de desfrute, que hoje beira os 18%, do rebanho. Na Argentina, onde se aplica o anabolizante, o índice é de 25% a 30%.
Outro objetivo é atuar nas épocas de seca, quando o animal perde peso pela falta de alimento de qualidade. Além da antecipação da idade de abate para 18/20 meses, de acordo com Bezerra, há possibilidade de aumento de 13% a 20% no rendimento de carcaça.
Níveis normaisOs hormônios hoje em uso no mundo foram exaustivamente estudados pelas indústrias e por um programa das Nações Unidas, através do Codex Alimentares, gerenciado pela FAO e Organização Mundial de Saúde, determinando limites sobre a ingestão de resíduos e a contaminação em humanos. Mais recentemente o Codex estudou cinco produtos que são utilizados nos Estados Unidos, Argentina e Austrália, entre outros países.
Constatou-se que três destes produtos têm níveis normais de hormônios e não fazem mal à saúde. Eles estão naturalmente presentes em todas as carnes. Com isso se espera que a União Européia, que mantinha restrições quanto ao recebimento de carne de países que utilizam o anabolizante, tenha que ceder e seguir as regras ditadas pela Organização Mundial do Comércio, que segue as recomendações do Codex.
No Brasil, o Sindicato dos Pecuaristas e a Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, em Brasília, DF, defendem a liberação e o uso destes produtos cientificamente comprovados, afirma Bezerra. A carne que é consumida no Brasil, importada da Argentina, por exemplo, é de gado tratado com anabolizantes.
O anabolizante deve ser considerado como coadjuvante tecnológico, explica Bezerra. É um dos instrumentos para conseguir animais com peso de abate mais precoce; desde que estes rebanhos tenham assistência veterinária, sejam vacinados, desvermifugados, desparasitados e, na entressafra, recebam sal mineral.
RestriçõesA veterinária e pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande, MS, Sheila da Silva Moraes, acredita que a liberação do uso de anabolizantes seja positiva para o rebanho brasileiro, desde que respeitada a indicação de produtos cientificamente comprovados e também o tempo de carência e intervalo entre a aplicação do produto e o abate do animal.
Sheila, que trabalha na área de Nutrição Animal da Embrapa, afirma que não só os anabolizantes são promotores de crescimento. Segundo ela, alguns antibióticos também agem no rúmen e melhoram a flora e absorção do alimento. Alguns são eliminados pelas fezes e urina, outros não. Dos promotores de crescimento o estradiol é mais usado e outro promotor antibiótico é a monasina.
O risco de outros produtos mais nocivos e não cientificamente comprovados e estudados entrarem no mercado preocupa a pesquisadora. Mesmo para os produtos indicados é preciso, lembra, respeitar o intervalo (de duas a três semanas) entre a última dose e o abate do animal, para evitar alta concentração dos componentes do medicamento. Compostos como o zeranol
, por exemplo, são mais preocupantes para a saúde dos animais do que para os humanos. Em suínos já houve problema de eczema e reação alérgica na Alemanha, que proibiu o uso.
Para obter bons resultados no uso de hormônios, o pecuarista deve atender as recomendações do produtores de anabolizantes quanto ao manuseio e aplicação. A aplicação do produto não vai eliminar o manejo sanitário e alimentar do rebanho. Se não tiver comida de qualidade, o anabolizante não agirá em benefício do ganho de peso dos animais.
Uso controladoPara uma pessoa absorver níveis normais de hormônios, comendo carne com anabolizantes, garante Bezerra, é necessário que consiga comer cerca de cinco quilos de carne por dia durante uns 70 anos. O atual consumo per capita no Brasil é de 27 quilos/ano. Se liberado o anabolizante, sindicatos e associações, além da indústria do setor pecuário, deverão esclarecer todos os segmentos sobre o uso. Uma sugestão é que os produtos sejam comercializados apenas com receituário veterinário.
Bezerra afirma que estes produtos são inóquos à saúde pública e não fazem mal ao consumidor. A polêmica registrada no uso de anabolizantes no País deveu-se ao uso do dietilestilbestrol (DES), nos anos 60 e 70. Este produto hoje é proibido também nos Estados Unidos. O uso deste princípio ativo foi proibido no Brasil porque se constatou que ele deixa resíduo de propriedades carcinogênicas na carne.


