DEDO DE PROSA -

Lembranças


Lembranças
Marco Jacobsen
 

Posto Fiscal Charles Naufal, Ponte Charles Naufal e Porto Charles Naufal são os nomes pela qual é conhecida hoje, aquela que, nas décadas de 50 e 60, era uma grande fazenda, uma vasta extensão de terra que ia até o Rio Paranapanema. Na estrada, à direita e à esquerda, via-se uma densa mata, um alto colonhão cheio de bois; mais para dentro, uma grande plantação de café e as casas dos empregados. Uma parte da fazenda ficava perto do distrito de Paranagi e de outro lado pertencia a Sertaneja, pequenina cidade onde nasci. O proprietário era Charles Naufal.

Quando criança, ouviam-se comentários: “ O seu Charles chegou “ ou “ Dessa vez ele veio com o irmão “ ou “ Será que vai demorar por aqui ?” Como não participava dos acontecimentos da cidade, eram muitas as indagações sobre ele. De onde viera ? De São Paulo, do Rio, de Minas, do exterior ? Era uma vida cercada de mistério, o que deixava as pessoas da cidadezinha muito curiosas. Sabíamos pouca coisa sobre ele. Era de São Paulo, muito rico, não era casado, acho que só tinha um irmão. De vez em quando aparecia em Sertaneja. Meu pai, José Olegário, tinha um sítio em Paranagi que fazia limite com a fazenda do seu Charles, por isso eles sempre conversavam. Saí cedo de Sertaneja, então não o conheci pessoalmente.



Bom, mas por que estou falando sobre este assunto ? É que nesta quarentena, em casa, além das tarefas diárias, temos uma rotina de atividades, como ouvir músicas, ler o nosso jornal, revista, livros, fazer sudoku, quebra-cabeças, palavras cruzadas, alongamento, assistir a filmes e séries policiais, inventar uma comida gostosa, aprofundar em nossas orações, a conversa em família e daí vêm as lembranças. Recordo-me dos caminhões e carros atolados naquela estrada de Sertaneja até o Rio Paranapanema, que separa o Paraná de São Paulo. Eu ainda estudava em Assis e vinha nos finais de semana ver a minha família que já morava aqui em Londrina. Às vezes, quando chovia, o ônibus para Assis não corria. Tinha que ir embora por Ourinhos, dava uma grande volta. Saía domingo à tarde, ficava uma grande parte da noite na rodoviária esperando o ônibus da Viação Andorinha que ia para Assis. Era muito cansativo; daí, em época de chuva, não vinha mais para Londrina.

Hoje, quando vamos para Sertaneja ou Cássia dos Coqueiros (SP) ver os parentes, admiramos a mudança daquela região, perto da praça de pedágio, apesar de não termos visto o processo de transformação do lugar, como o desmatamento, a aração, o preparo da terra para o plantio. Passem por aquele lugar, entrem na estrada de Sertaneja e verão a bela paisagem, o tapete de soja ou trigo que tem por lá. É muito lindo! Por isto, digo sempre, graças aos agricultores, sitiantes e à grande colônia japonesa que lá trabalham, é que as terras de Sertaneja e região são as mais valorizadas do Norte do Paraná.


Idiméia de Castro, leitora da FOLHA. 




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