Leite pode ser mais rentável do que carne
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sexta-feira, 08 de junho de 2001
Cláudia Barberato De Londrina 
Mudar a cabeça de produtores e técnicos. Este é o primeiro desafio para modificar a situação atual atividade leiteira no Brasil. O produtor brasileiro de leite deve parar de copiar exemplos de fora, fazer investimentos desnecessários e aproveitar a sua realidade e o seu mercado, só assim será mais competitivo. Se bem conduzida a atividade leiteira pode render, por hectare, de quatro a cinco vezes mais do que a pecuária para produção de carne.
O aviso é do pesquisador da Embrapa Gado de Leite, especialista em nutrição de ruminantes, Leovegildo Lopes de Matos. A Embrapa Gado de Leite, que tem sede em Juiz de Fora (MG), montou há alguns meses em Londrina o Núcleo Regional Sul de Apoio a Pesquisa e Transferência de Tecnologia, do qual Matos é o gerente. Ele também foi um dos palestrantes do Encontro de Produtores de Leite que aconteceu na semana passada em Arapongas (37 km a oeste de Londrina).
Leiteiro e agricultor As margens de lucratividade podem ser conseguidas no volume. E a produção direcionada para volume por área e não mais produção por vaca. Não se pode mais manter vacas de alta produção confinadas, comendo silagem e concentrado, o que eleva os custos. O produtor tem que entender que a atividade dele é produzir forragem para alimentar os animais, seja na seca ou nas águas e produzir a pasto. A necessidade de compra de forragens tira a margem de lucratividade do negócio.
Segundo o nutricionista, com um hectare de cana-de-açúcar, por exemplo, é possível manter 40 vacas produzindo. O consumo de 2 quilos de concentrado, mais a cana, poderá render uma produtividade de 10 litros/dia por animal. Mas é possível, com vacas de maior potencial de produção, consumindo uma proporção de 1 quilo de concentrado para cada 10 litros de leite produzido, uma produção média de 30 litros/leite/dia/animal.
Fazer só o necessário O produtor deve priorizar, segundo o pesquisador da Embrapa, da compra de sêmen dos animais aos equipamentos, somente o necessário. Na hora de comprar sêmen, por exemplo, avisa Matos, o produtor deve adquirir uma genética que possa trazer bezerras mais lucrativas e não somente mais produtivas, com um custo benefício que possa viabilizar margens de lucro.
O produtor que tiver vacas confinadas, consumindo silagem de milho, terá que obter dessas fêmeas uma produção de 26,6 litros/dia/intervalo de parto (DIP) como nível de sobrevivência. Uma produção que possa cobrir a falta de leite das vacas que estão secas no plantel. Neste caso, esse produtor estará empatando custos de produção e rendimentos, sem lucratividade. Esses dados são do Projeto Vitória, avisa Matos, que está empolgado com o trabalho da Emater Paraná na região do Arenito, que reúne profissionais da própria Emater-PR e das Universidades Estaduais de Londrina e Maringá.
Se a vaca consumir 60% de sua necessidade alimentar no pasto e 40% de silagem de milho, sua produção teria que ser de a 14,75 litros/vaca/DIP e se tiver 60% de consumo de pasto e 40% da alimentação a base de cana mais uréia, empata com 9,12 litros/vaca/DIP. Logicamente que vacas de leite podem produzir bem mais que isso e o que for a mais será o lucro do produtor, avisa o pesquisador.
Cana como alternativa Um programa de alimentação com cana mais uréia, segundo o pesquisador, pode até igualar a produção das vacas leiteiras na seca, quando o pasto tem menor quantidade e qualidade, com a produção que é obtida nas águas, quando as pastagens oferecem maior qualidade.
Durante o período seco a uréia servirá para melhorar a digestibilidade da cana-de-açúcar e aproveitar melhor pastagem existente. A cana seria uma alternativa ao milho, mais viável economicamente, pois demanda menos tratos culturais e mão-de-obra e, além disso, é perene.
Por que complicar? O leite é uma atividade simples que muitos gostam de complicar. O investimento maior que um produtor pode ter é na compra de uma sala de ordenha, quando ele precisar dela.
No Brasil uma das dificuldades em trabalhar na atividade leiteira, de acordo com o pesquisador da Embrapa, é a de que o produtor não está com as vacas. Normalmente mora na cidade e depende de mão-de-obra especializada para cuidar do rebanho, o que não é fácil de conseguir. Outra dificuldade: os produtores se organizarem em cooperativas, fazerem investimentos, e não conseguir manter tudo isso e acabar vendendo para as multinacionais.
Rumo ao Oeste Historicamente no Brasil, Minas Gerais é o maior produtor de leite, devido ao número de produtores e ao tamanho do rebanho. Goiás, que era o quinto produtor, hoje é o segundo e desbancou São Paulo, que também perdeu uma posição para Rio Grande do Sul e hoje é o quarto produtor. O Rio Grande do Sul é o terceiro e Paraná é o quinto produtor. Na opinião do pesquisador da Embrapa, o Paraná logo ocupará a quarta posição, tirando o lugar de São Paulo.
Uma tendência que se mostra na pecuária leiteira brasileira, a exemplo do que está acontecendo nos Estados Unidos, é a mudança da atividade para as regiões mais ao Oeste do País. No Centro-Oeste, por exemplo, produtores que já sabiam fazer agricultura optaram também por investir no leite e com a produção de forragens reduziram custos de produção da atividade.
Goiás tem um rebanho mais rústico e a maioria dos produtores de lá não investiram em infra-estruturas acima da necessidade, ao contrário do que aconteceu em São Paulo e em algumas regiões do Paraná, situação que acabou descapitalizando o produtor de leite. O rebanho goiano mestiço produz leite a pasto e aguenta as condições climáticas locais. Produtores que adquiriram animais importados, de alta linhagem genética, do Uruguai, Argentina e, no Paraná, da Região Sul, hoje estão numa situação difícil.
Rendimento mensal No Paraná, esta movimentação para outras áreas, segundo Leovegildo Matos, também está acontecendo. No Oeste do Paraná muitos produtores de grãos, aves e suínos, ligados a cooperativas, sentiram a necessidade e a vantagem do fluxo de caixa mensal do leite e estão investindo na atividade.
Enquanto o investimento em suínos ou aves exige grande inversão de capital na construção de galpões, no leite o produtor deve primeiro preocupar-se com a produção de alimentos e os investimentos serão consequência da produtividade por área do rebanho. Além do rendimento mensal do leite, a atividade beneficia a recuperação de antigas áreas degradadas como no arenito, no Noroeste do Paraná, com o plantio de novas pastagens e da cana.


