Leite orgânico será tema de pesquisa
As orientações necessárias para produção de leite orgânico serão tema de uma pesquisa que a Embrapa Gado de Leite iniciará a partir de julho no Campo Experimental Coronel Pacheco (MG). De acordo com o médico-veterinário Luiz Aroeira, que conduzirá os trabalhos, a pesquisa pretende definir as diretrizes para implantação de uma fazenda de leite orgânico, além de informar sobre os cuidados necessários para transformar em orgânica uma propriedade tradicional. Há carência de pesquisas científicas nesta área. As pessoas querem saber se a produção é economicamente viável, justificou o pesquisador, que também vai investigar a qualidade do leite orgânico para compará-lo com o produzido pelo método tradicional. A pesquisa será financiada pelo Banco Mundial, que deve publicar o edital até o meio do ano.Vamos concorrer e já estamos preparando o projeto, acrescentou.
Para o produtor Joe Valle, que atualmente coordena o Programa de Agricultura Orgânica da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) de Brasília (DF), o investimento em pesquisa permitirá o desenvolvimento de tecnologias apropriadas. A investigação científica reflete em redução de custos, porque garante certeza sobre os resultados que o produtor vai obter, afirmou.
Mais Natural A produção de alimentos orgânicos é regulamentada pela Instrução Normativa nº 7 do Ministério da Agricultura e Abastecimento, publicada em 17 de maio de 1999. Com base nestas normas, as empresas que conferem a certificação orgânica orientam sobre as ações necessárias para garantir o selo.
O produtor de leite orgânico deve se preocupar em oferecer ao consumidor um produto livre de resíduos antibióticos e carrapaticidas. É preciso buscar as causas das doenças e dos parasitas, para trabalhar a prevenção, comentou Valle, ressaltando que o animal se desenvolve de maneira mais saudável se o ambiente for equilibrado.
Para evitar o uso de medicamentos, é recomendável optar por raças mais resistentes. O ideal é escolher os animais que se adaptem melhor à região onde se localiza a propriedade, analisou.
No caso dos animais apresentarem doenças que exijam a administração de medicamentos, a dica é utilizar produtos homeopáticos. De acordo com Joe Valle, existe um laboratório em São Paulo que produz os remédios em escala comercial. São mais baratos que os medicamentos convencionais, informou.
Os antibióticos devem ser usados apenas em situação de extrema necessidade. Nesses casos, o animal precisa ficar em quarentana para eliminar todo o medicamento ingerido, antes do leite voltar a ser comercializado.
Alimentação A pastagem também precisa ser resistente, pois a utilização de adubos e herbicidas agroquímicos é proibida. O pesquisador Luiz Aroeira recomenda a implantação de forragens diversas, para garantir alimentação durante todo o ano.É interessante utilizar capim no período de chuvas e leguminosas na época de seca. A biodiversidade favorece a conservação do solo.
A ração utilizada na alimentação do gado não pode ultrapassar 10% do volume total consumido pelos animais. O ideal é que seja produzida na própria fazenda, pois assim o produtor terá certeza que o alimento é orgânico e não vai interferir na qualidade do leite, disse.
De acordo com Valle, outro requisito fundamental para a produção do leite orgânico é a observação diária do rebanho e da pastagem, para identificar problemas e saná-los antes que tragam complicações. O produtor tem que viver na propriedade, o processo orgânico exige cuidados específicos.
Remuneração Difícil de ser encontrado, o leite orgânico alcança preços até quatro vezes mais caros que o convencional. O valor praticado remunera o produtor e permite que ele tenha qualidade de vida na roça, permanencendo na terra. Os conceitos da agropecuária orgânica preconizam a questão do que é socialmente justo, argumentou Joe Valle.
O ranking da produção orgânica de leite no País é liderado pela região Sul, que produz aproximadamente 10 mil litros por dia. Em seguida vem a região Sudeste, com 1,8 mil litros produzidos diariamente. O produto ocupa apenas 3% do mercado de leite, sinalizando a existência de um nicho com muitas possibilidades de exploração.
O consumidor do leite orgânico também apresenta perfil diferenciado. São pessoas que não se importam em pagar mais caro, porque estão preocupadas com sua própria saúde e a saúde global do planeta, disse ele, que produz 250 litros por dia e possui um pequeno laticínio para fabricação de queijos e iogurtes livres de resíduos antibióticos e agroquímicos.
Sob coordenação de Valle, a Emater de Brasília está organizando uma associação de produtores de leite orgânico que pretende viabilizar um laticínio conjunto. São cinco associados, sendo que um já é certificado, três estão em fase de conversão e um deles está em processo de certificação. O associativismo é outro conceito importante dentro da agropecuária orgânica.





