Leite é alimento importante. Então por que está abandonado?
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sexta-feira, 05 de março de 2004
Célia Guerra<br>Reportagem Local 
O produtor de leite Louis Baudraz, 66 anos, de Rolândia (25 km a oeste de Londrina), ainda mantém a esperança de recuperar os bons tempos em que a atividade, mesmo com pequenas margens de lucro, se mostrava eficiente. A crise leiteira teve início em 1995, quando os preços foram liberados pelo governo. Até então, a cotação do leite era tabelada.
O problema do setor leiteiro, segundo o produtor, se agravou nos últimos três anos com o aumento da produção, elevação de cutos da atividade, queda no consumo e a concorrência com produtos importados. Baudraz cita ainda a falta uma política para o setor, que garanta meios para que o excesso de produção seja absorvido de alguma forma.
Diante de tantos problemas, o resultado tem sido a saída de tradicionais produtores da atividade. ''Só ficaram os apaixonados ou os deserdados, aqueles sem outra opção'', ilustra Baudraz. Quem persistiu, segundo ele, passou a trabalhar com prejuízos ou ''até pagando para produzir''.
No ano passado o leite garantiu a Baudraz uma receita média de R$ 0,485 por litro, quando o custo de produção ficou em R$ 0,495. ''Tive um prejuízo anual de R$ 0,01 por litro, um volume alto para o ano''.
Os 110 hectares da propriedade são totalmente voltados para a produção leiteira. ''No sítio produzimos o volumoso para alimentar o rebanho. A ração concentrada também é preparada aqui.'' Isso garante mais vantagem ao produtor na soma final do custo de produção com uma economia de 15% a 20%. O rebanho de gado da raça holandesa soma 350 animais. No ano passado a produtividade média foi de 3.500/litros/dia.
A pecuária leiteira convive, em anos normais, com preços mais baixos durante o verão, quando a produção é maior. Já no inverno, quem dispõem de tecnologia, consegue produzir mais, numa época em que a oferta do produto no mercado é reduzida e, portanto, obter preços melhores.
Acostumado aos preços mais baixos, comuns na safra, este ano Baudraz computa um prejuízo ainda maior, cerca de R$ 0,05 por litro, do que ocorreu nos últimos safras. A expectativa do produtor é que uma reação de preços aconteça na entressafra, período que consegue maior produção e há menor oferta no mercado. Com isso será possível equilibrar as contas e melhorar a lucratividade.
O que regula o preço do leite, para o produtor, são a produção e o consumo. Sempre que se fala em consumo a responsabilidade de queda é atrelada ao baixo poder aquisitivo da população.
O produtor supõe que a parcela do orçamento familiar que seria dedicada ao leite pode estar sendo desviada para cobrir outros custos como o pagamento de impostos, água, luz, combustível, entre outros. Mas, Baudraz não concorda com isso. Para ele a queda no consumo se deve muito mais a mudanças no hábito da população, aliada à falta de divulgação da importância do leite na alimentação humana. ''A juventude, incentivada pela propaganda, está trocando o leite por refrigerante'', critica.
Além da redução no consumo, Baudraz diz que a rentabilidade do leite está sendo afetada pelo aumento no custo de produção. Para ele, o setor está sendo penalizado pelos bons preços da soja dos últimos dois anos. ''Insumos e maquinários tiveram reajustes muito acima da inflação'', reclama.
Bastante organizado e com tudo anotado no papel, Baudraz, um suíço que vive no Brasil há 44 anos, está desanimado, mas garante que vai insistir na produção leiteira.
Ele conta que lida com a atividade há pelo menos 60 anos. ''Sempre gostei de produzir leite, é a minha vocação''.
Além da experiência, o produtor cita o aspecto social da produção leiteira. A sua propriedade emprega 14 famílias. É fonte de renda também para ele e seus três filhos. ''Se mudar para a soja, só uma família dá conta do trabalho. O que vou fazer com os demais?'', questiona.
Serviço: Louis Baudraz se coloca à disposição de outros produtores que buscam a organização da produção. Ele pode ser encontrado pelos telefones (43) 256-2521/(43) 9116-8797 ou e-mail: [email protected].


