Lavouras de soja com menos veneno
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de outubro de 1997
Cristina Côrtes 
ArquivoEquilíbrioO controle biológico das pragas da soja vem crescendo ano-a-ano no ParanáO controle biológico de pragas da soja no Paraná ganha um novo impulso e a natureza agradece. É o Projeto Melhoria da Qualidade do Ambiente Rural Produtivo, uma parceria da Emater-PR com a Embrapa Soja, que está trabalhando não somente com o manejo puro e simples das pragas, mas utiliza o modelo de microbacias numa concepção mais ampla para o desenvolvimento equilibrado no campo.
A unidade geográfica, conhecida como microbacia, foi bastante difundida no Estado pela extensão com a implantação do trabalho de conservação de solos, e a mesma idéia é agora aproveitada para estimular o manejo integrado de pragas.
A primeira experiência na Bacia do Rio do Campo, na região de Campo Mourão, começou na safra 93/94 e em três anos já é um sucesso. Na última safra (96/97) enquanto 80% dos outros produtores da região tiveram que fazer o controle químico de percevejos, na microbacia apenas 14% fizeram a mesma prática.
DivulgaçãoO baculovirus controla as lagartas sem prejudicar o meio ambiente
Num esforço conjunto de produtores, pesquisadores, estudantes, cooperativas e associações, a área de mais de 7 mil hectares (ha), onde vivem aproximadamente 600 pessoas, na Bacia do Rio do Campo, é um lugar que reúne alta produtividade nas lavouras em harmonia com a Natureza, economia e qualidade de vida.
Limpar o ambienteO entomologista da Emater, Lauro Morales, explica que nesta nova concepção de controle de pragas é preciso tratar a questão como um todo. O objetivo é limpar o ambiente, utilizando diversos tipos de manejo.
A região de Campo Mourão foi escolhida para início do projeto porque lá estava instalado um laboratório da Embrapa, para a multiplicação da vespinha utilizada no controle natural de percevejos. Além disso, a área já tinha conservação de solos, mata ciliar e um grupo de produtores organizados, fatores fundamentais para o desenvolvimento do manejo de pragas, acrescenta Lauro.
O controle das duas principais pragas da soja, a lagarta e o percevejo custam ao produtores do Paraná, a cada safra, aproximadamente US$ 40 milhões de dólares, e a cada ano são jogados no meio ambiente 2 milhões e 500 mil litros de inseticidas, só nas lavouras de soja.
Dorico da SilvaA utilização da vespinha no controle de percevejo só é eficiente quando o ambiente está equilibrado
Dos 2,4 milhões de hectares (ha) de soja no Paraná, 20,1% já estão sendo controlados com o Baculovirus anticarsia. Estes números vêm crescendo ano-a-ano, desde que o baculovirus começou a ser produzido na safra 88/89. Para Lauro a prática mais importante para atingir este resultado é o monitoramento das pragas, ou seja, a avaliação das populações de insetos nas lavouras.
Na Bacia do Rio do Campo, onde vivem 64 produtores os levantamentos das populações de pragas nas lavouras é feito por um grupo treinado de alunos do Colégio Agrícola de Campo Mourão. O trabalho destes jovens é uma parceria fundamental para os bons resultados que estamos conseguindo, afirma Lauro.
Novos produtosAlém da vistoria e contagem dos insetos, os produtores estão sendo estimulados a mudar de produtos, trocando os tradicionais venenos por produtos fisiológicos ou biológicos como o baculovirus e o dipel.
Apesar destes produtos serem um pouco mais caros, o produtor tem vantagens na redução do número de aplicações, na conservação do meio ambiente e nos ganhos de produtividade. Quando se faz a primeira aplicação com baculovirus ou produtos fisiológicos, o número médio de aplicações é de 1,89 vezes, e quando se aplica primeiramente um veneno como o monocrotofós, por exemplo, as aplicações subsequentes sobem para 2,55 vezes.
Normalmente a aplicação de produtos químicos no combate à lagarta dificulta o controle de percevejos, porque mata os inimigos naturais. E se a infestação de percevejos for grande, ela só poderá ser controlada com produtos que são extremamente agressivos ao meio ambiente.
Lauro Morales comenta também que o número de aplicações feitas no Paraná é até razoável. O que precisa mudar mesmo é o tipo de produto que é utilizado, enfatiza.
Atualmente, além da Embrapa, outras empresas estão produzindo o baculovirus. Para esta safra existem 1 milhão e 600 mil doses disponíveis, para serem aplicadas em todo o Brasil, mas o pesquisador acredita que o número de aplicações deve ficar em torno de 1 milhão e 200 mil doses. No Paraná a previsão é de que o baculovirus seja aplicado numa área de 500 a 600 mil ha. De 12 a 15% das aplicações são feitas pelo próprio produtor, que coleta e macera as lagartas.


