Lavouras comerciais integradas no sistema agroflorestal
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de dezembro de 2001
Maranúbia Barbosa<br>De Londrina 
Mais que um projeto ambiental, um projeto de vida. Assim pode ser resumido o trabalho desenvolvido pelo agricultor e ambientalista Daniel Steidle na Fazenda Bimini, em Rolândia (25 km a oeste de Londrina). Ele conseguiu conciliar lavouras comerciais, como café, milho, girassol e mandioca com uma grande diversidade de árvores. Um exemplo da viabilidade do projeto já começa a aparecer: o palmito juçara, ameaçado de extinção em todo o País, se adaptou perfeitamente fora de seu habitat natural, as florestas, e milhares de mudas crescem em meio a diversas plantações da fazenda.
Além disso Steidle instalou um arboreto botânico com a orientação do pesquisador da Embrapa Florestas, Paulo Ernani Carvalho, de Colombo, região metropolitana de Curitiba. As mudas, introduzidas em uma área de 13,8 mil metros quadrados, são intercaladas em espaçamento de cinco por cinco metros. Entre as fileiras de milho, girassol, quiabo, mandioca, feijão guandu e groselha, 193 espécies de árvores nativas e 64 exóticas, como barbatimão, pau-marfim, pau-brasil, copaíba e uva do japão foram plantadas e são adubadas a cada três meses com uma mistura de filtro de cana. O plantio de mudas, informa Steidle, começou em setembro do ano passado e conta com o apoio do Instituto Ambiental do Paraná (IAP).
Experimentos
Em outra área experimetal, nas curvas de nível da lavoura mecanizada de soja e milho, Steidle plantou entre as três linhas de feijão guandu, mudas de palmito juçara e uva do japão, com espaçamento de dois metros. Encobertas pelas touceiras de cerca de três metros do feijão, as mudas cresceram e estão com cerca de um metro.
Outro experimento que deu certo pode ser conferido na lavoura de café. Originalmente, os 208 hectares da Fazenda Bimini, até o início da década de 80, quando Steidle chegou da Baviera (Alemanha), estavam destinados à cafeicultura. Em dezembro do ano passado, as mudas recepadas do café Catuaí da área de dois hectares começaram a ser intercaladas com diversas espécies de árvores de grande porte.
O quiri da china, cedro australiano, terminalia ivorensis e canafístula foram plantas aproveitando o espaçamento de quatro metros. Especialmente as mudas de quiri, com cerca de 1,5 metro, estão sendo podadas por Steidle de modo a crescerem com tronco retilíneo. A queda das folhas, além de formar uma cobertura morta de excelente valor orgânico, ainda protege o café dos efeitos de um inverno mais rigoroso. ''O sombreamento também diminui o stress da planta'', salienta.
Vantagens
Segundo Steidle, as vantagens dos arboretos em atividades agropecuárias são inúmeras. Além do tradicional quebra-vento e sombreamento estratégico, a valorização do imóvel, a recuperação dos nutrientes do solo e o equilíbrio ambiental, aliados à pouca mão de obra e baixo custo, são destacados pelo agricultor. Em suma, ''os arboretos podem se tornar a base para o desenvolvimento sustentável'', afirma o ambientalista.
Os arboretos botânicos das lavouras comerciais, explica Steidle, começaram depois que se constatou a viabilidade do arboreto florestal, o primeiro a ser implantado na Fazenda Bimini, em 1996. A maior parte das 588 árvores de 49 espécies diferentes já estão adultas e formam um bosque de proporções significativas. Muitas das espécies, como a canela sassafrás, que produz um componente para a perfumaria, o cadam nim, da qual se extrai um inseticida biológico eficaz, espinheira santa, o timbó e mogno africano, são altamente rentáveis. O quiri da china, ressalta, tem um leque de possibilidades econômicas, como o aeromodelismo e também a apicultura. As propriedades medicinais e a utilização da madeira em serrarias são opções para o agricultor, diz Steidle.


