A próxima safra de verão terá maiores riscos devido à interferência do La NiÀa, fenômeno climático que resfria as águas do Oceano Pacífico Equatorial interferindo na ocorrência de chuvas aqui no Brasil. Especialistas em agricultura, agronegócios e meteorologia adiantam que a presença do fenômeno climático merece cuidado especial para evitar possíveis prejuízos. Todas as culturas são influenciadas, mas no caso dos grãos, o maior prejudicado é o milho, cuja produção pode cair de 50 a até 80%.
Por ser mais sensível e precisar de boa quantidade de água quando está em fase de florescimento, visto que a umidade auxilia na polinização, o milho sofre maior risco. Dependendo do momento e da intensidade da falta de água, a produção poderá ser fortemente comprometida, segundo o coordenador estadual da Área de Grãos da Emater, Nelson Harger.
Havendo indicativo de La NiÀa, o produtor tem que ficar alerta porque pode ser surpreendido com períodos de grande deficiência hídrica. É um ano de risco para a agricultura, no entanto, algumas medidas preventivas podem diminuir a probabilidade de perdas. O pesquisador da Embrapa Soja, José Renato Farias, orienta o agricultor a se valer de toda tecnologia e orientações disponíveis para tentar, ao máximo, amenizar os possíveis prejuízos.
Usar boas práticas de manejo de solo favorecendo a retenção de água; escalonar o plantio; utilizar práticas conservacionistas, semear com mais profundidade e plantar cultivares de ciclos diferentes são algumas medidas que podem auxiliar neste período em que a lavoura fica mais vulnerável. ''É importante usar meios de combate para não perder tudo caso o pico de deficiência hídrica aconteça no momento da floração'', ensina Farias.
Como as chuvas de verão devem ser mais restritas entre outubro e novembro, a orientação aos agricultores de soja, por exemplo, é para o plantio a partir do dia 20 de outubro, mesmo que chova antes. Pois se o plantio ocorrer no início do mês, por exemplo, o período de escassez de chuvas previsto pode pegar a planta em desenvolvimento próximo ao do florescimento. A resposta da planta, lembra o pesquisador da Embrapa, será a da antecipação da florada o que, consequentemente, resultará em baixo potencial produtivo.
O agrônomo da Emater lembra também que o tempo mais seco, comum aos anos de La NiÀa, reduz a pressão sobre alguns males da cultura como as doenças. Assim, usar estratégias diferenciadas de controle, de acordo com o cenário climático, deve ser a tática de todo produtor. Uma das recomendações é reduzir parte das aplicações de fungicidas. ''Uma aplicação de fungicida custa em torno de quatro a cinco sacas de soja. Numa produção de 30 alqueires, já representa uma economia boa, por isso temos chamado a atenção para essas medidas'', complementa Nelson Harger.
José Renato Farias destaca que não é possível determinar a intensidade dos danos do efeito climático na produtividade e no rendimento das lavouras. Tudo depende da época em que ocorra a falta de água - efeito típico do La NiÀa no Sul do País - ou o excesso dela - efeito comum no Nordeste. Em alguns anos, verificou-se perda de até 15% e em outros, como 2004 e 2005, até 75% no Rio Grande do Sul de acordo com a média estadual. A produtividade média saiu de 2,6 mil quilos para 570 mil só de soja. ''É difícil precisar o que realmente acontecerá sobre todas as culturas em andamento'', confessa.
Segundo Farias, alguns pesquisadores afirmam que o La NiÀa deste ano será muito semelhante ao que ocorreu em 1998, por ter começado na mesma época e a evolução estar na mesma intensidade. Naquele ano, o fenômeno não trouxe grandes mudanças à soja da região Norte. ''Mesmo que provoque seca no período vegetativo ou depois da colheira, se a falta de água não coincidir com o período crítico, quase não tem efeito sobre a cultura'', explica o pesquisador da Embrapa Soja. Já a região Sul teve uma queda considerável em 1998. Quanto mais ao sul, mais significativo é o efeito do La NiÀa.
Como o Paraná, principalmente o norte do Estado, está numa região de transição, com climas entre temperado e tropical, os resultados do fenômeno não são tão intensos. ''Nem sempre somos atingidos pelo efeito do El NiÀo e da La NiÀa; no Rio Grande do Sul é mais acentuado'', esclarece.
A exemplo do Brasil, os Estados Unidos também sofre o efeito negativo do La NiÀa na produção de grãos, no chamado ''cinturão verde''. Para o pesquisador da Embrapa Soja, isso pode significar uma boa perspectiva de mercado, principalmente para o milho e soja. ''Pode ser que o Brasil perca um pouco no volume de produtividade e ganhe no preço'', estima.

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