Jovens do Agronegócio – O que fazem por trás das porteiras do campo?

Inovação, criatividade e apoio são elementos essenciais para formar sua trajetória rural

Ana Júlia Gabas -  Estagiária*
Ana Júlia Gabas - Estagiária*

A 162 km de Londrina - em Presidente Prudente (SP) - Saile e Cesar Farias estão inovando em produzir conteúdo agro para as redes sociais. Os irmãos já possuem mais de 30mil seguidores no perfil @JovensdoAgro que acompanham diariamente como é a lida no campo, a contação de histórias e, principalmente, os desafios que os profissionais das ciências agrárias encontram. “Estamos fazendo uma nova comunicação, potencializando a voz do agro com os influenciadores”, conta Cesar Farias. 

 

Jovens do Agronegócio – O que fazem por trás das porteiras do campo?
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Com a finalidade de unir os jovens do agronegócio, os irmãos se dedicam a ajudar quem tem interesse em empreender na área e, também, quem quer continuar o legado dos pais. “Independente de tamanho de propriedade, independente de área de atuação, queremos focar nos sucessores e levar adiante o legado da família”, diz Saile Farias

 

Ações como essa são fundamentais para promover a discussão que já não vem de agora: a manutenção dos jovens no campo. Muitas vezes os jovens são motivados a saírem por conta de vários obstáculos que encontram no caminho, como a exclusão do sistema produtivo, o acesso precário a serviços de internet e a falta de políticas públicas voltadas especificamente para os jovens.

 

Segundo Alexandre Leal dos Santos, secretário da Juventude Trabalhadora Rural da Fetaep (Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná), é necessário chamar esses jovens por meio de eventos informativos e palestras que mostrem para eles as vantagens de ficar no campo. Para o secretário, falar sobre temas como a sucessão rural e políticas públicas ligadas direta ou indiretamente para esse público é essencial.

 

SUCESSÃO

 

De acordo com último Censo Agro do IBGE, a faixa etária dominante entre os produtores é de 45 a 64 anos. Ainda segundo o censo, no estado do Paraná, 75% das pessoas que estão ocupadas nas propriedades possuem parentesco com o produtor, fato que desperta para a questão da sucessão familiar.

 

“A questão da sucessão familiar é difícil, porque as vezes o agricultor não aceita essa transição de forma que o filho venha a contribuir com o processo na propriedade”, ressalta Paulo Mrtvi, ténico agrícola do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR). O técnico agrícola ainda reforça que muitos jovens saem para obter especialização e conhecimento científico. Quando voltam, eles não conseguem aplicar o que aprenderam, e por isso, vão buscar outras oportunidades nos meios urbanos.

 

Segundo Paulo Mrtvi, é papel da extensão rural tentar mudar esse cenário: “o extensionista tem que considerar a propriedade como um todo e a família que está inserida lá”. A sucessão familiar deve sempre ser um tópico presente nessa conversa entre extensionista e produtor. “Tem que ir degrau por degrau essa sucessão, porque a partir do momento que o filho acertar, o pai não vai mais ver ele como filho, vai ver ele como profissional”, completa.

 

Patrícia Fiorindo, agricultora de 25 anos, trabalha com os pais na propriedade em Londrina. Ela conta que desde criança sempre teve contato com a agricultura, quando sua mãe a levava dentro do carrinho de bebê para ficar junto com ela nos pés de café. Essa proximidade fez Fiorindo adquirir “gosto pela coisa” e querer seguir o caminho dos pais. Com isso, foi se especializar. Fez um curso técnico em biotecnologia no SANAI e também frequentou colégio agrícola, fato que só contribuiu para confirmar que a agricultura realmente era sua paixão.

 

Patrícia Fiorindo, 25 anos, quer seguir o caminho dos pais
Patrícia Fiorindo, 25 anos, quer seguir o caminho dos pais | Arquivo Pessoal
 

Hoje, a relação com os pais é muito boa. “Às vezes eu dou umas dicas para eles, as vezes eles dão dicas para mim”, conta. Os anos de trabalho no campo, de fato, fazem os pais questionarem se essas novas técnicas vão realmente funcionar. O segredo, segundo ela, é mostrar na prática e ir negociando aos poucos.

 

Patrícia deixa claro a importância do movimento sindical em toda sua experiência rural, “eu me encantei pelos movimentos sindicais, porque era realmente aquilo o que a gente estava vivendo no sítio”. Segundo ela, a ajuda vinda da Fetaep foi significativa para conseguir acessar as políticas públicas de financiamento de terras, principalmente na questão da documentação.

 

“Se tivesse que dar um conselho para os jovens, para continuar no campo, eu diria para ir no sindicato, pedir conselho. Se eles conseguirem ajudar, pode ter certeza que vão. Se não for a área deles, eles vão encaminhar para Secretaria da Agricultura ou para a IDR”, incentiva.

 

TECNOLOGIA NO CAMPO

 

Apesar da sucessão familiar ser o principal ponto discutido quando se trata da manutenção dos jovens no campo, há de se considerar que nem todos possuem o interesse de seguir por esse caminho. Mas isso não significa que eles não possam contribuir de alguma forma para as atividades rurais.

 

Victor Bodnar é agrônomo, formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e veio de uma família de engenheiros agrônomos. Desde criança, o pai e os tios o levava para visitar as terras e passar o dia no sítio. Apesar de sua família possuir propriedade rural, ele conta que nunca foi seu interesse assumir como sucessor. Pelo contrário, queria obter o conhecimento científico e tecnológico para ajudar não só a sua família, mas também, várias outras a inovarem e a ter sucesso no campo.

 

Victor Bodnar quer obter o conhecimento científico e tecnológico para ajudar não só a sua família, mas também, várias outras a inovarem e a ter sucesso no campo
Victor Bodnar quer obter o conhecimento científico e tecnológico para ajudar não só a sua família, mas também, várias outras a inovarem e a ter sucesso no campo | Arquivo Pessoal
 



 

Fez mestrado nos Estados Unidos e voltou para aplicar o que aprendeu. No início, não foi fácil conseguir emprego na área, mas com persistência, hoje trabalha com o que desejava: em uma empresa na área de agricultura digital e agricultura de precisão. Além disso, faz parte da Thought For Food (TFF), uma iniciativa internacional que apoia e incentiva a busca por novas ideias na agricultura e na alimentação.

 

Para Victor, é muito importante que o jovem no agro esteja engajado nessa parte digital e tecnológica do campo, já que é uma tendência. A exemplo disso, hoje discute-se muito sobre a implantação do 5G no campo, e é essencial o jovem estar preparado para lidar com as novas tecnologias e apresenta-las para o produtor.

 

“É uma engrenagem, uma coisa vai levando a outra”, diz Victor. Para o agrônomo, é necessário ter a pesquisa para levar o conhecimento ao produtor e se obter um produto de qualidade. “O importante é a gente produzir cada vez mais alimento, muito mais sustentável, gastando menos, poluindo menos, com a sustentabilidade maior e utilizando o tanto de área que a gente já tem, sem precisar abrir mais áreas”, conclui.

 

SOLUÇÕES

 

A iniciativa de empreender, de buscar conhecimento, de trazer algo novo, é toda do jovem. Mas, ter apoio para atingir o que deseja conquistar é uma parte muito importante do processo.

 

A Fetaep, por exemplo, possui o programa Jovem Saber, que apresenta para o jovem todo o conteúdo de políticas públicas, a realidade da comunidade e a atuação do sindicato. “Eles vão debatendo, é um material provocativo”, explica Alexandre Leal dos Santos. Além disso, discute-se em construir um plano estadual de sucessão rural, o que facilitaria na questão de unificar e passar o conhecimento para os produtores e para os próprios jovens sucessores.

 

Para Paulo Mrtvi, do IDR, tudo tem que passar pela educação. “Nas escolas rurais deveria ser adotada uma disciplina que falasse de sucessão, de política agrícola, de valorização da agricultura familiar, dos lotes, do agricultor, mostrar que tem que haver uma sucessão e que ela deve ser planejada com antecedência”. Investir na capacidade do aluno e, principalmente, dar suporte emocional são caminhos certeiros.

 

Saile e Cesar Farias também acreditam que a questão emocional deve ser um ponto a ser olhado com carinho. Até por isso, os irmãos já estão planejando em fazer o primeiro encontro nacional do Jovens do Agro em Presidente Prudente. Pretendem fazer mesas redondas com jovens no agro que se destacaram, pegando vários exemplos de sucessão e fugir um pouco das palestras técnicas. “A gente sente que é uma questão emocional, então esses jovens precisam de inspiração, de saber que eles não estão sozinhos, que a gente já passou por isso”, explica Saile. “O segredo para sucessão dar certo é o diálogo”, completa a agrônoma.

 

POLÍTICAS PÚBLICAS

 

Segundo o Censo Agro 2017 do IBGE, 26% dos estabelecimentos agropecuários no Paraná obteve financiamento e desses, 60% são financiamentos do governo, em sua maioria o pelo Pronaf. Por isso é importante conhecer o que já existe e como utilizar.

 

PRONAF - Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar

Financiamento para custeio e investimentos de serviços no estabelecimento rural, visando à geração de renda e à melhora do uso da mão de obra familiar.

 

 PRONAF JOVEM

 

Quem pode solicitar?

Pessoas físicas com idade entre 16 e 29 anos, integrantes de unidades familiares que, além da apresentação de Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) ativa, atendam a uma ou mais das seguintes condições:

tenham concluído ou estejam cursando o último ano em centros familiares rurais de formação por alternância, que

atendam à legislação em vigor para instituições de ensino;

tenham concluído ou estejam cursando o último ano em escolas técnicas agrícolas de nível médio ou, ainda, há mais de um ano, curso de ciências agrárias ou veterinária em instituição de ensino superior, que atendam à legislação em vigor para instituições de ensino;

tenham orientação e acompanhamento de empresa de assistência técnica e extensão rural reconhecida pela SAF/MDA e

pela instituição financeira; e tenham participado de cursos de formação do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) ou do Programa Nacional de Educação no Campo (Pronacampo).

Como solicitar?

O interessado deve dirigir-se à instituição financeira credenciada de sua preferência para obtenção de informações sobre a documentação necessária à negociação da operação, que será analisada com base em projeto técnico a ser apresentado, além de Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), fornecida por agente credenciado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.

 

Fonte: BNDES.GOV.BR

 

Jovens do Agronegócio – O que fazem por trás das porteiras do campo?
Folha Arte
 



Dia Estadual da Juventude Rural

 

No dia 16 de novembro de 2020, há quase um ano atrás, foi aprovado pela Alep (Assembleia Legislativa) o projeto de Lei 446/2020, que institui o dia 15 de julho como o Dia Estadual da Juventude Rural. Com isso, surge uma alternativa que homenageia o trabalho do jovem no campo e, também, que possa estimular o poder público a promover mais políticas públicas voltadas para o jovem.

 

Agora, com a aprovação da proposta, podem ocorrer anualmente ações que estimulem os jovens a permanecerem e investirem no campo. Em 15 de julho de 2021, ocorreu a primeira ação, uma audiência pública remota que abordou o tema “Dia Estadual da Juventude Rural do Estado do Paraná - Debatendo a sucessão rural e o incentivo à permanência da juventude no campo”. 


(supervisão de Patrícia Maria Alves/editora)


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