Jogo de bola no sítio
Era domingo de tarde. A gente saía de Londrina e entrava na estrada sinuosa que atravessava o pequeno ribeirão e ia depois pela subida até o Bratislava. Logo que chegava dava para ver gente jogando bocha no barracão ao lado da venda, virávamos à direita da igrejinha de madeira e logo mais tinha um campo de futebol à esquerda onde a vizinhança aos domingos se arrebentava em chutar bola. Anos oitenta. Futebol era paixão popular de tri esperando o tetra.
Fomos ao sítio dos meus tios e meu primo Zé chamou a gente para jogar bola no campinho logo ao lado da casa. O campo, em dias de semana era pasto e, eventualmente, o "Maracanã". Tinha lá um certo desnível, que ajudava quem chutava para baixo e atrapalhava quem chutava para cima. Mas isto é apenas um detalhe. Para quem joga bola o negócio é chutar a bola.
Tinha um pessoal que havia chegado e foram todos se arrumando com umas chuteiras de cravo e tudo. Eu e meus irmãos estávamos despreparados e sem futebol algum. Os caras, pelo jeito, treinavam todo fim de semana. Eu acabei ficando do lado de fora só assistindo pois os times eram só para "gente grande". No meio do campo tinha uns galhos e tocos pequenos que faziam jus ao nome de "arranca toco e quebra dedo" para esse tipo de jogo no sítio. Era grama e pedaço de colonião para todo lado, mas de vez em quando saía um gol e o pessoal quase se matava para festejar o gol. O problema era buscar a bola nomeio das taquaras lá embaixo. Mas como eu disse, o negócio é jogar a bola.

No país do futebol o que importava era o gol, mas o jogo era a catimba, o jeito de driblar, a ginga, a cabeceada, o chute de trivela, de três dedos, a bola passada no meio das pernas, o chapéu, e a gritaria do técnico na beira do campo, o juiz que errava na arbitragem de vez em quando, bandeirinha - quando tinha - fazendo o que podia, e o escanteio bem batido levando o time pra final. Bicicleta era o delírio. Na cabeça a lembrança de Pelé, Rivelino e Tostão, com um futebol imortalizado pela habilidade e pela arte. Futebol e arte se confundiam e eram levados a todos. Uma paixão inexplicável.
Quando a seleção brasileira ganhava uma copa do mundo a molecada inteira queria ser um jogador de futebol, ser um artista da bola, com fama, entrevista e, mais do que tudo, ser aclamado pela torcida quando fizesse um gol. Era a glória de quem jogava num campo da capital ou de beira da várzea. Futebol ainda é sonho e, apesar de muitas decepções o futebol é uma arte e a vida é feita de sonhos. Se eles se realizam isso nem sempre é mais importante do que sonhar em realizá-los. Para vivermos é preciso primeiro sonhar. Enquanto vivemos a sonhar,vivemos e fazemos de cada sonho uma esperança que nos leva a ter fé e a fé move montanhas. Sonhemos. Sonhemos e movamos as nossas montanhas.
Dailton Martins, leitor da FOLHA





