Somos um país onde se lê pouco e, por isso mesmo, um expressivo nome da nossa literatura como Monteiro Lobato, possivelmente é desconhecido da grande maioria dos brasileiros. Em todo caso, a figura por ele imortalizada, a do Jeca Tatu, ficou gravada no imaginário popular infelizmente de forma negativa. Através dela o homem do campo acabou convertido em símbolo do atraso com suas calças remendadas, chapéu de palha desfiado, cigarro de palha atrás da orelha, sempre de cócoras sob suas botas furadas e olhar perdido no horizonte onde o futuro se desenha obscuramente num lusco-fusco de atraso e inércia.
Associado ao isolamento e à lentidão o campo ficou também marcado pelo contraste com a cidade industrializada de terno e gravata, cheia da pressa, que passa em carros velozes e aviões que cortam os céus. Lá na roça, pensam os urbanos, o Jeca Tatu deve imaginar que um gavião de aço passou lá em cima fazendo barulho, enquanto envia aos céus seu sorriso desdentado que as crianças das quadrilhas de São João imitam pintando os dentes de preto.
Além do mais, os conceitos errôneos sobre o meio rural, que acabam se transformando em preconceitos, se prendem a um passado que desliza pelos séculos coloniais onde nossa formação histórica enraizou a figura do senhor patriarcal. E tanto esta imagem quanto a do Jeca Tatu, parecem congeladas no tempo como se as alterações provocadas pelas rodas do progresso não pudessem alcançá-las.
Desse modo, tolda-nos a visão, impossibilitando a compreensão do presente e, o que é pior, incapacitando a visualização do futuro que no Brasil tem tudo a ver com a força que sempre emergiu da nossa natureza privilegiada, do meio rural, do homem do campo, esteio e sustentáculo desse país continental.
Ressalte-se que a atividade econômica mundial que experimentou o maior crescimento em produtividade, volume e valor de bens produzidos no século 19, não foi a indústria no sentido lato de termo, mas a agricultura.
No Brasil, a primazia do meio rural sobre o urbano prevaleceu até a segunda metade do século 18 originada da divisão territorial em capitanias hereditárias, fórmula encontrada pela matriz portuguesa para manter o domínio e o controle das imensas terras que por descoberta passaram a lhe pertencer. Mas no decorrer do nosso processo histórico, econômico e social, ir-se-á modificando a estrutura agrária com o crescimento das médias e pequenas propriedades. Hoje, dos avanços tecnológicos e das demandas do mercado internacional cada vez mais competitivo, emerge o empreendedor rural, inserido simultaneamente nas esferas rural e urbana, e que deixa anos luz para trás o folclórico Jeca Tatu só existente no preconceito que alimenta conceitos errados sobre o campo.
O moderno empreendedor rural naturalmente ainda enfrenta dificuldades bastante grandes, das condições climáticas que sempre o penalizaram às políticas governamentais equivocadas. Na verdade, esse profissional que desempenha a tarefa vital de manter a vida através da produção de alimentos, notabiliza-se pela tenacidade, pois produz sem esperança de recompensa por seus esforços apesar de contribuir para equilibrar a balança de pagamento, outra forma de colaborar para o bem estar dos brasileiros.
Recapitule-se, para se ter uma melhor visão da importância do produtor rural, que através de sua ação ele é capaz de gerar renda e emprego, num efeito multiplicador nem sempre conhecido pela maioria das pessoas. Isto porque, através da complexa rede do agronegócio mais serviços são agregados fora da fazenda.
Em termos numéricos, esclareça-se que do agronegócio se origina mais de um terço do PIB nacional. E é no campo ou na roça, como se diz preconceituosamente, que se emprega 40% da força de trabalho e são gerados US$ 15 bilhões de superavit na balança comercial.
Plagiando Euclides da Cunha, digo que o produtor rural é antes do tudo um forte. Recentemente isso ficou comprovado quando nem canadenses nem europeus puderam contra nós com suas vacas loucas, sendo que do episódio saímos fortalecidos. E quando o Brasil quer contrariar sua vocação rural transitando pela contramão da história pelos descaminhos do presente, ainda assim o produtor rural continua a provar que é a ponte por onde transita o futuro da Nação.
Portanto, é chegada a hora da ideologia urbana eliminar seu preconceito contra o meio rural e esquecer o Jeca Tatu. Hoje os empreendedores rurais continuam a voltar os olhos para os horizontes de sua Pátria, mas o que eles vêem nada tem de nebuloso pois sabem, como sempre o souberam, que são os agentes não do atraso mas do progresso desse nosso País.
O autor é engenheiro agrônomo e presidente da Sociedade Rural do Paraná

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