Japão de olho no potencial da soja brasileira
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de novembro de 2001
Carolina Avansini<br>De Londrina 
Para representantes do Centro Internacional Japonês para Ciências Agrícolas (Jircas), o Brasil é um dos países que apresenta maior potencial para produção de alimentos no mundo. De acordo com Takahiro Inoue, presidente da instituição, essa característica despertou no Japão o interesse em ajudar a desenvolver tecnologias para melhorar o cultivo da soja destinada ao consumo humano e mais tolerantes à seca. O país asiático produz apenas 40% dos alimentos que consome, dependendo da importação para atender às necessidades de sua população.
Ele esteve em Londrina durante a semana participando do Seminário sobre Melhoria, Produção e Utilização da Soja na América Latina, promovido pela Embrapa Soja. O evento teve o objetivo de discutir os resultados obtidos por um acordo de cooperação firmado há cinco anos entre a instituição brasileira e a japonesa. Desde 1997, quatro pesquisadores japoneses estão no Brasil desenvolvendo estudos para melhorar a cultura no País.
Inoue acredita que com a introdução de práticas sustentáveis, o Brasil possa se tornar uma importante alternativa para os importadores mundiais de soja. O Japão compra do exterior 95% das cinco milhões de toneladas do grão que consome. A maioria desse volume vem dos Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia Austrália e China. ''Se continuarmos dependendo apenas desses países, corremos o risco de enfrentar grandes flutuações de mercado, que podem se acentuar com as ameaças de mudanças climáticas'', disse. Do Brasil, saem 530 mil toneladas.
Programa
Na reunião, foi definida a prorrogação do programa de parceria internacional entre Jircas, Embrapa e instituições de pesquisa uruguaias e argentinas por mais cinco anos. De acordo com Caio Vidor, chefe da Embrapa Soja, a parceiria continuará priorizando algumas linhas de pesquisa. A primeira delas é o desenvolvimento de cultivares de soja mais adequadas à alimentação humana.
Isso implica em um produto com sabor mais agradável ao paladar e com maior riqueza de isoflavona, um anti-oxidante que contribui para melhorar a saúde das pessoas. Takahiro Inoue acredita que a introdução da soja na alimentação dos brasileiros contribuiria bastante para diminiuir o problema da fome no País, já que o produto é uma excelente fonte de proteínas.
Outra prioridade é o desenvolvimento de cultivares tolerantes à seca, informou Vidor. ''Grande parte das regiões brasileiras enfrenta períodos de veranico, por isso é importante desenvolvermos espécies mais resistentes à falta de chuvas'', opinou. Segundo o pesquisador, a Embrapa está negociando com o Jircas a utilização de um gene que foi isolado de uma planta resistente à seca.
Fertilidade e nutrição
A parceria também buscará desenvolver programas de fertilidade no solo e nutrição da soja. O objetivo é garantir condições para expandir a cultura para outras regiões através de práticas sustentáveis e integradas. Vidor revelou que na Argentina e Estados Unidos, a área de soja está aumentando graças ao deslocamento de terras de outras culturas. No Brasil, não há necessidade de adotar o mesmo procedimento, pois o País cultiva 14 milhões de hectares (ha) mas possui 50 milhões de ha disponíveis, principalmente na região central.
A fusão de empresas produtoras de sementes brasileiras e grandes multinacionais também preocupa a pesquisa. Vidor acredita que essa conjuntura abre precedentes para a importação de cultivares que podem trazer pragas até então inexistentes por aqui. ''Vamos utilizar a experiência dos japoneses para avaliar possíveis impactos e encontrar soluções para os problemas antes que eles apareçam'', afirmou.


