J.J.CajuCapturando iscas vivas, no PantanalTrês meses foi o tempo que Luizio Wilson Espinoza, 26 anos, formado em Ciências Biológicas pelo Centro Universitário de Corumbá, e André Steffens Moraes, 39 anos, pesquisador da Embrapa/Pantanal, levaram para traçar o perfil do pescador de iscas. A atividade emprega 95,1% de homens e apenas 4,9% de mulheres. O Rio Paraguai é o mais procurado pelos pescadores.
Segundo Espinosa e Moraes, somente 2% dos pescadores pesquisados disseram ter concluído o segundo grau. Dos 62 pescadores ouvidos, 13% informaram que eram analfabetos, 6,5% nunca haviam estudado, mas afirmaram que sabiam ler e escrever, e 41,5% informaram que chegaram a frequentar o ginásio, porém não concluíram o curso.
A maioria dos entrevistados (92%) reside em Corumbá, principal cidade do Pantanal do Mato Grosso do Sul. A faixa etária do isqueiro varia entre 13 e 70 anos. O estudo de Luizio Espinosa e André Moraes revela ainda que 54% deles pescam há mais de cinco anos.
‘‘Não existe no Estado legislação específica sobre iscas e, com isso, não se conhece ainda a biologia das iscas’’, observa o pesquisador da Embrapa em Corumbá, André Moraes. O turista-pescador, por exemplo, tem o direito de capturar 25 quilos de peixes, mais um exemplar. Não há cota para os isqueiros. A pesquisa informa que, quando não estão pescando, eles desempenham outras atividades na cidade, como servente de pedreiro ou mesmo como piloteiro de barco para turistas.
‘‘O equipamento mais utilizado para a captura de iscas vivas é uma tela de nylon tipo mosquiteiro (malha fina de aproximadamente 0,70 cm por 1,5 m), fixada em quadro de madeira ou ferro, geralmente operado por duas pessoas, que mergulham a tela na água, verticalmente, e a trazem rapidamente para a superfície’’, explica Luizio Espinosa.
Durante a captura, segundo ele, as iscas são separadas por espécies e colocadas em galões de 20 litros. ‘‘Ao serem levadas para o acampamento, na beira do rio, são colocadas em recipientes maiores, de até 200 litros’’, salienta Luizio Espinosa. ‘‘Após o término da empreitada lá no Pantanal, as iscas são transportadas em recipientes ainda maiores, que variam entre 500 e 1.000 litros, dentro dos barcos’’, acrescenta.
As iscas mais capturadas são caranguejo, truvira, jejum, cascudo, pirambóia e curimbinha. Luizio Espinosa e André Moraes informam que intermediários organizam, selecionam e pagam os grupos de isqueiros’’.
O intermediário é sempre o piloteiro e o dono do barco. ‘‘Geralmente é o único que possui carteira de navegador e licença para o transporte de peixes’’, esclarecem Espinoza e Moraes. Para fazer parte do grupo, o isqueiro precisa gozar de boa saúde e ser de confiança. ‘‘Ser de confiança significa não explorar o esforço dos outros companheiros, não fazer corpo-mole, pois ao final da viagem a receita total da captura é dividida igualmente entre os isqueiros, independente das capturas individuais’’, diz Luizio Espinoza.
Cada grupo é formado por até 10 pessoas. As viagens ao Pantanal variam entre três e 21 dias, dependendo da necessidade de iscas e da distância até o local de captura. ‘‘Como não há um cozinheiro específico, cada dia um faz a bóia, o que nem sempre resulta em refeições de qualidade’’, comenta Espinoza.
No Pantanal, o grupo é dividido em duas equipes: uma para trabalhar durante o dia e a outra para trabalhar à noite. Em média, os isqueiros ganham quatro salários-mínimos por mês. Espinoza e Moraes não apuraram quanto ganha o piloteiro do barco nem quanto dinheiro a atividade movimenta. Toda a produção é vendida nas casas de iscas das principais cidades pesqueiras do Estado.
De novembro a janeiro, época da piracema, a pesca é proibida no Mato Grosso do Sul. O isqueiro que não tiver a carteira de pescador profissional, perde o direito de receber o seguro-desemprego do Governo Federal.

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