Ao lado da correria, das preocupações com o cotidiano, bolsa de valores, commodities, aquecimento solar, muita gente ainda diminui o ritmo para prestar atenção ao que acontece à sua volta, nos sinais que a natureza emite para mostrar o seu curso. Nesta semana, o solstício de inverno marcou o início da estação e o dia mais curto do ano.
O efeitos do movimento da terra em torno dela mesma (rotação) e em torno do sol (translação) na vida das pessoas despertam o interesse de pesquisadores e da população ao longo dos séculos. Os efeitos mais evidentes ocorrem na agricultura, mas há quem diga que o movimento exerça influência direta no comportamento e na vida das pessoas.
A última quinta-feira foi o dia de menor incidência de luz solar em número de horas - que é chamado de fotoperíodo. Plantas precisam da luz solar para o seu pleno desenvolvimento, além de outros fatores como temperatura e condições do solo. Porém, cada espécie tem uma exigência diferente. ''O comprimento do dia influencia no processo de florescimento. Há plantas de dias longos e outras de dias curtos'', sintetiza Celso Jamil Marur, pesquisador da área de ecofisiologia do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).
Segundo Jamil, os efeitos da incidência da luz solar nas plantas foi descoberto casualmente há cerca de 70 anos nos Estados Unidos com a cultura do tabaco. Por meio de experimentos os pesquisadores descobriram que uma variedade não florescia e continuava formando folhas. Somente em estufa e com temperatura alta a planta continuava viva e iniciava o florescimento. ''A descoberta foi importante porque permitiu o entendimento do fenômeno chamado fotoperiodismo'', explica o pesquisador.
De acordo com Jamil as plantas são divididas em dois grupos. Existem as espécies de dias longos e as de dias curtos. As plantas de dias longos são aquelas que exigem um número superior ao limite de horas de luz. ''Somente a partir deste patamar é que o florescimento tem início. Ao contrário, as espécies de dias curtos começam a florescimento abaixo de um limite'', explica. Há ainda plantas neutras, que não sofrem qualquer interferência da luz.
O homem descobriu meios de interferir no processo, simulando as condições ideais para as diversas espécies. Isso ocorre principalmente na produção de flores. O crisântemo, por exemplo, é uma espécie de dia longo, condição que pode ser criada artificialmente nas estufas, quando na estação do ano os dias são curtos.
O girassol é uma exceção. A planta tem esse nome justamente por acompanhar o movimento do sol durante o dia e recebe a mesma denominação em diversos idiomas. Segundo Regina Villas Boas de Campos Leite, da Embrapa Soja, ao contrário de outras espécies, o girassol não tem o mesmo comportamento em condições artificiais. ''A planta não acompanha a luz instalada numa estufa, ela depende exclusivamente da luz solar''. diz.
De acordo com o pesquisador, a luz é medida em lux - unidade que quantifica a incidência de luminosidade solar. Porém, é o período escuro que comanda o processo de reação aos efeitos da luz. ''Quando a noite não pode ser maior, basta acender uma luz por poucos minutos, que o período escuro é interrompido e a planta 'interpreta' como se fosse um fotoperíodo superior à sua exigência'', explica Jamil.
Essa condição, segundo o pesquisador, é obtida com apenas 2 ou 3 luxes - o equivalente à luz de uma vela colocada a uma distância de 30 centímetros da planta. ''A quantidade de luminosidade necessária é pequena. Árvores ou arbustos próximos a postes de iluminação também podem sofrer efeitos das lâmpadas próximas a elas'', diz.
O papel da pesquisa foi determinante para enfrentar as particularidades de cada espécie. A soja, por exemplo, cultura que ocupa grandes áreas no Brasil, é uma planta de dia curto, como explica o pesquisador. Originária da China, só era cultivada em latitudes maiores que 35 graus. No caso da América do Sul, a cultura só tinha êxito em algumas regiões da Argentina. ''Por meio do melhoramento genético foram desenvolvidas variedades nas quais os efeitos do fotoperiodismo são menores. Hoje a soja é cultivada próximo à linha do Equador, onde a incidência de luz solar é de 12 horas por dia'', afirma.

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