A tendência no Brasil é que haverá uma introdução rápida, maciça, da transgenia ‘‘aplicável ao global da produção’’. A observação é do presidente do Conselho Nacional das Empresas Estaduais de Pesquisas (Consepa) e do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), engenheiro-agrônomo Florindo Dalberto. Ele ressalva que a transgênese é um dos temas que têm sido discutidos no âmbito do Consepa, além do assunto ser ainda polêmico no mundo. Embora não haja um consenso, existe a tendência. ‘‘O avanço científico está aí e ele é importante para a produção, porque vai diminuir custos, reduzir a aplicação de produtos químicos’’.
A Pioneer sementes Ltda. tem autorização da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e instalou testes de campo e plots demonstrativos de seus produtos transgênicos em vários locais do Brasil. Essa empresa, que na safra passada liderou as vendas de produtos orgânicos nos Estados Unidos, prevê que no Brasil o material transgênico será colocado do mercado já no ano 2.000. Na safra americana passada foram plantados quase meio milhão de hectares de sementes de milho geneticamente modificado e mais de 2,5 milhões/ha com soja Roundup Ready.
Cadeias diferenciadasA transgenia parece, considerando a tendência, a certeza próxima, mas o presidente do Consepa lembra que já existe a idéia de que é preciso fazer cadeias diferenciadas de alimentos e produtos. A produção é necessária, porque muitos industriais e comerciantes querem assegurar que não trabalham com nada transgênico. Esta é uma exigência de boa parte dos consumidores, especialmente na Europa.
Portugal: transgenia é processo natural do avanço da engenharia genéticaAssim, por exemplo, o Brasil deve procurar fornecer soja a esse tipo de clientes, que formam um nicho (no momento) de mercado específico. O governo francês está fazendo levantamento, para saber qual o mercado para os produtos não-transgênicos na Europa toda. De posse dessas informações, soja não-transgênica brasileira poderia atender a clientela européia que nada quer com transgênicos.
‘‘Pode ser que amanhã - diz Florindo Dalberto - essa questão não exista mais; que a sociedade toda tenha aceitado os produtos transgênicos. Quanto tempo isso levará, é uma incógnita, mas por enquanto, de qualquer forma, a transgenia está abrindo uma oportunidade de mercado. No Paraná já estamos fazendo isso.’’
ParceriasDevido à crise fiscal, as empresas brasileiras de pesquisa agronômica estão procurando aumentar suas parcerias, de modo que elas também entrem no mercado; que busquem uma sustentação não só do Estado, mas também com seus produtos, com sua competência tecnológica, para ter outras fontes de recursos.
O presidente do Conselho Nacional das Empresas Estaduais de Pesquisa, Florindo Dalberto, afirma que essas instituições são prejudicadas pela crise fiscal, que impede sua sustentabilidade. A solução é buscar parcerias independentes dos recursos financeiros dos Estados. A crise fiscal é, informa, a principal dificuldade do sistema brasileiro de pesquisa, que sem parcerias não tem sustentabilidade institucional.
Embora a crise dos Estados derive da crise federal, as empresas estaduais de pesquisa estão, como faz a Embrapa, e juntamente com ela, buscando recursos do Orçamento da União, além de procurarem aumentar suas parcerias. Através dessas parcerias, uma empresa privada destina recursos a pesquisas que lhe interessam desenvolver, aproveitando-se da experiência da pesquisa oficial, ou paga direitos por resultados de pesquisas obtidos pelos institutos oficiais.
‘‘A agriculura se faz nos Estados e por isso o orçamento para pesquisas não deve considerar apenas a Embrapa’’, argumenta o presidente do Consepa e do Iapar. Florindo Dalberto lembra que as empresas estaduais têm mais da metade dos recursos humanos e geram mais da metade das pesquisas feitas no País. ‘‘Os órgãos de pesquisa dos Estados estão presentes em todos os temas, em todas as culturas, em todos os setores, porque estão mais próximos da realidade’’, justifica.
ConsepaFazem parte do Consepa instituições de dezenove Estados que têm órgãos de pesquisa, no total de 2.500 pesquisadores. Alguns Estados têm estruturas mistas de pesquisa e extensão, como ocorre em Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Florindo Dalberto explica que o Paraná foi escolhido para a direção do Conselho, ‘‘devido à referência que é no sistema estadual de agricultura e pela manutenção de instituições estáveis, como o Iapar - ‘‘que é referência nacional’’ - e a Emater, o órgão de extensão rural.
Na região Norte do País as pesquisas agronômicas são feitas pela Embrapa e por Universidades, porque não existem lá órgãos específicos estaduais.
CompetitividadeO presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Alberto Duque Portugal, acredita que a transgenia de plantas é um processo natural do avanço das pesquisas de engenharia genética.
‘‘A sociedade dificilmente poderá deixar de utilizar transgênese, porque a técnica tem capacidade de mudar as condições de competitividade entre os países e regiões dentro de um mesmo país; porque ela permitirá que determinado produto, antes não produzido em uma região, possa vir a ser produzido ali. ‘‘Se quisermos garantir competitividade, precisamos acelerar o desenvolvimento dessa tecnologia. E a Embrapa tem interesse de caminhar nesta direção, porque ela nos dará maior competitividade’’, justifica Portugal.
SegurançaQuanto à segurança que este tipo de produto oferece ao consumidor, Portugal observa que é preciso levar em consideração que existem ‘‘transgênicos e transgênicos’’. Segundo ele, não cabe à Embrapa decidir se o consumo desses produtos é seguro ao consumo humano. ‘‘A CTNBio é o órgão competente para fazer este tipo de avaliação’’, lembra.
Portugal diz, no entanto, que o consumidor tem o direito de ser informado sobre como foi produzido o que está consumindo. Ele afirma que a FAO (órgão da ONU para a Agricultura e Alimentação), já está definindo regras para a comercialização de produtos transgênicos.
O presidente da Embrapa ressalva que o desenvolvimento de transgênicos vai além da utilização de herbicidas sobre lavouras já plantadas. Através da engenharia genética, diz, os produtores poderão ter acesso a cultivares mais produtivas, ou resistente a doenças, secas e outras condições que limitam o cultivo.
Meio-ambientePortugal afirma que a preocupação com o ambiente faz parte dos objetivos da Embrapa. Segundo ele, a empresa busca desenvolver tecnologias que garantam maior competitividade e qualidade aos produtos, mas sempre observando o impacto que trarão ao meio-ambiente. Isso englobaria a transgênese.Paulo WolfgangOpçãoFlorindo alerta que Brasil deve oferecer também produtos não-transgênicosJota Oliveira

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