''Inteligência cafeeira'' para evitar crises
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de setembro de 2002
Érika Pelegrino<BR>Folha Rural 
A produção de café já está no fundo do poço, em termos de preço baixo. Para 2003 estima-se que a oferta em escala mundial seja menor que a demanda acenando para uma melhora no preço do café. A análise é do pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), de São Paulo, Luiz Moricochi.
Ele apresentou a palestra ''Mercado de Café Médio e Longo Prazo'', no treino visita realizado em conjunto com cooperaativas e Emater, na quarta-feira à tarde. Estiveram presentes 45 técnicos em extensão rural. Moricochi afirmou que em 2003 a estimativa é de que sejam produzidas mundialmente menos de 110 milhões de sacas de café. Dez milhões a menos que este ano.
O pesquisador afirma que a crise vivida hoje já foi anunciada em 1996 e 1997. Com o preço da saca do café em U$ 200 em maio de 1997, os produtores se entusiasmaram e houve um crescimento vertiginoso na produção. O café demora de três a quatro anos para maturar e em 2002 vive-se o auge da super produção do café.
''A demanda mundial ficou entre 1,5% e 1,8% ao ano, enquanto a oferta foi de
3,5% ao ano'', afirma Moricochi. ''Em 2003 a oferta será menor que a demanda o que pode reverter a situação. Eu digo ''pode'' porque depende dos estoques existentes nos países consumidores''.
Segundo o pesquisador, em 1992 o café enfrentou crise semelhante. ''A saca custava U$ 40 e uma grande parcela deixou de produzir. Com isto em 1997 a saca foi para U$ 200'', afirma. Hoje o preço da saca em dólares está muito baixo, mais em real está melhor do que em 1992, segundo Moricochi, devido a intervenção do governo com o contrato de opção.
Entre os desafios que a cafeeicultura brasileira deve enfrentar, o pesquisador defende a criação de uma ''inteligência cafeeira'' para evitar que esta situação se repita plantio exagerado de café diante de um preço bom.
''Temos que sair do amadorismo e nos profissionalizarmos'', alerta.
A ''inteligência cafeeira'', segundo Moricochi, consiste num grupo formado por pessoas que entendam de economia e política do café, sem vínculos corporativistas. O pesquisador alerta também para a importância de uma política exportadora consistente.
Ele afirma que a idéia de que o Brasil só produz produtos sem qualidade para o mercado externo, não persiste mais. ''O Brasil é um fornecedor confiável, tem qualidade, sustentabilidade e área 100 milhões de hectares para café'', afirma. O que falta o Brasil, de acordo com Moricochi, é uma cultura de exportação.
''Nós não vendemos, nós somos comprados. Temos que ser vendedores'', afirma.
''Existe um mercado de 5, 6 milhões de sacas do qual nós não participamos. O Brasil tem que partir violentamente para a exportação (torrido e moído) e ter um grupo de empresários dispostos a enfrentar o desafio''.
Em pesquisa realizada pelo IPEA, segundo Moricochi, detectou-se que a indústria brasileira do café torrado e moído tem nível tecnológico e condições de competir externa e internamente.


