Musilli CerradoOpçãoLavoura de soja, uma opção na área do Projeto SavanasDentro da execução do Programa Cooperativo de Investigação e Transferência de Tecnologia (Procitrópicos ou Projeto Savanas), desenvolvido por quatro países da Região Amazônica, uma das tecnologias propostas para aproveitamento dos solos dos Cerrados é a integração de culturas, como o cultivo de grãos em rotação com áreas de pastagens.
A informação é do pesquisador Osmar Musilli, um dos participantes daquele projeto, que é integrado pelo Brasil, Venezuela, Bolívia e Colômbia, sob coordenação do Instituto Interamericano de Cooperação Agrícola (IICA). Dos 300 milhões de hectares de Cerrado daquela região, 260 milhões/ha estão no Brasil. Naquelas terras existem muitos problemas; dentre eles destaca-se a baixa fertilidade do solo. Por isto o fundamental agora, segundo o técnico, é validar as práticas, que já existem, de preparo do solo. A recuperação dos solos do Cerrado e seu manejo sustentado é a principal meta do Projeto Savanas. Plantio direto, rotação de culturas e a integração entre lavoura e pecuária dentro da propriedade são algumas das propostas dos técnicos.
Sustentabilidade‘‘Nós acreditamos que esta integração agricultura-pecuária é que vai dar sustentabilidade ao negócio agrícola naquela região’’, diz Musilli. O projeto está no segundo ano e poderá ser concluído dentro de um ano, quando terá condições de difundir a tecnologia gerada para a região.
É preciso melhorar a qualidade das pastagens existentes no Cerrado. Musilli observa que não se pode mais imaginar, hoje, uma pecuária extensiva, que suporte um animal em três hectares, por exemplo. ‘‘O negócio agrícola exige competência, isto é, qualidade com produtividade’’. Por isto, ele adverte que se deve olhar o pasto também como uma cultura; ‘‘não se deve mais olhar o pasto como uma forma de ocupar terras inaptas’’.
Para melhorar o pasto, tem que melhorar o solo. E a melhoria do solo tem um custo elevado. Musilli acredita que se pode compensar ‘‘quase totalmente’’ o custo, melhorando o solo através da agricultura. Por exemplo, cultivando arroz e soja, após fazer calagem e adubação. Em seguida seriam semeados os pastos, num plano de rotação em que periodicamente áreas de pasto seriam ocupadas por lavouras e áreas de lavouras seriam ocupadas por pastos, dentro da mesma fazenda.
DiversificaçãoO que existe hoje, observa o pesquisador, são propriedades especializadas em agricultura ou propriedades especializadas em pecuária. ‘‘Isto - acrescenta - é o que predomina, mas é perfeitamente viável associar as duas atividades dentro da mesma propriedade agrícola. A experiência tem demonstrado esta possibilidade’’.
Renovar o pasto via agricultura, estabelecer um plano de uso da terra em que periodicamente faz-se a rotação. Isto vale tanto para grandes áreas de pecuária extensiva de corte quanto para pequenas propriedades dedicadas à produção leiteira. ‘‘E para ambas as situações existe tecnologia. Nós temos comprovada esta tecnologia nas duas situações’’, garante o pespquisador. Hoje, sublinha Musilli, a restrição não é a falta de tecnologia; é a falta dos meios para implementar a tecnologia. ‘‘E o desconhecimento que existe desta tecnologia’’.
O Paraná, embora não tenha grandes extensões de área, poderia, na opinião do pesquisador, adotar estas tecnologias em qualquer região. Musilli sabe que nos Campos Gerais a renovação de pastos com lavouras já é praticada, ‘‘e o Noroeste também vem buscando esta integração’’. ‘‘A Natureza tem ensinado que quanto mais diversificado é um sistema de produção, mais auto-sustentável ele é. A Natureza em si é diversificada, o homem é que tenta privilegiar determinadas atividades, muito mais em função dos interesses econômicos, e passa a criar monoculturas, as áreas extensivas de um só produto’’, acrescenta Osmar Musilli.
Teoria e práticaDentro do Procitrópicos, Musilli, que trabalhou no Iapar, onde foi convidado para ser consultor da FAO na América Latina e Caribe, está agora a serviço da Embrapa. Ele destaca que a própria Embrapa ‘‘já vem fazendo um trabalho bastante expressivo’’ no sentido da difusão de tecnologias para aquela região.
‘‘Os demais países têm que avançar um pouco mais na geração de tecnologia, e na medida em que vamos avançando na validação, encontramos novos desafios para produzir outras tecnologias, pois se trata de um processo dinâmico, no qual o essencial é a participação dos produtores no processo, com a sua experiência, com a sua prática’’. É a união da teoria científica com a prática de quem está há anos lidando no campo.
Melhorar a fertilidade do solo exige investimentos, o emprego de corretivos, de adubos. Musilli diz que teria que haver um programa governamental dando apoio: ‘‘Tem que existir realmente um programa de desenvolvimento regional, dando suporte para que venha a prosperar esta proposta. Nós estamos concentrando esforço em comprovar a tecnologia e a partir daí mostrar a potencialidade do Cerrado brasileiro, onde seguramente nós dobraríamos a produção de grãos do País em curto espaço de tempo, desde que haja vontade política e o suporte necessário para a estrutura do projeto.’’

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