Cláudia Barberato
De Londrina
O coordenador do Fórum Nacional Permanente de Corte, da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Antenor Nogueira, denunciou na semana passada que frigoríficos exportadores vêm atuando no mercado ‘‘de maneira coordenada para forçar uma queda nos preços da arroba do boi gordo, prejudicando diretamente os produtores.’’
Segundo Nogueira, os dirigentes de frigoríficos exportadores de todo o País, depois de uma reunião no dia 10 de novembro, afinaram o discurso ‘‘no sentido de passar para o mercado a informação mentirosa de que as exportações estão em queda e é preciso vender o produto no mercado nacional.’’ Na avaliação do dirigente, a tentativa é para baixar artificialmente os preços no mercado doméstico, prejudicando pecuaristas e frigoríficos não exportadores.
Nogueira explica que como os frigoríficos adquirem a arroba do boi diretamente do produtor pagando US$19,50 e exportam o mesmo produto por US$38,00 e, portanto, têm uma margem suficiente para vender a carne no mercado interno a preços mais baixos do que os concorrentes nacionais, forçando assim uma queda geral nos preços. ‘‘Conseguindo reduzir os valores da arroba, os mesmos frigoríficos garantiriam um lucro ainda maior nas exportações’’, explica o dirigente da CNA.
Prática desleal Os frigoríficos exportadores, segundo Nogueira, começaram com uma prática que ele chama de desleal ao negociarem pequenas quantidades de carne a preços mais baixos do que os praticados pelas indústrias que operam no mercado interno. Um exemplo é o preço do quilo traseiro que estava sendo vendido entre R$3,10/3,20 e teve o preço reduzido para R$2,80/2,90, ‘‘desestabilizando o mercado interno.’’
‘‘Como os frigoríficos que atuam no mercado interno têm que acompanhar os preços do varejo, essas indústrias também foram forçadas a baixarem seus preços. Na ponta final, o consumidor, no entanto, continua pagando o mesmo preço pela carne’’, garante Nogueira.
‘‘Sou o primeiro a defender a cadeia produtiva da carne e acredito que todo mundo tem que trabalhar junto para ganhar dinheiro com a atividade, mas este tipo de prática desleal com produtores e frigoríficos que operam internamente no País, não pode acontecer’’, desabafa Nogueira. E continua: ‘‘Se a gente percebesse que essa redução estaria sendo repassada ao consumidor eu me calaria. Mas, na verdade nada foi repassado.’’
De olho na entressafra Nogueira acredita que os frigoríficos exportadores estão forçando a redução de preços já pensando nas cotações da próxima entressafra. ‘‘Pagando um preço baixo na entrada da safra as indústrias pretendem chegar no pico da safra, por volta de maio, com um preço menor ainda’’, avalia.
Historicamente em maio, quando começa uma interrupção natural das chuvas, principalmente no Centro-Oeste, acontece um acúmulo natural de oferta de boi gordo. O produtor brasileiro, normalmente, segundo Antenor Nogueira, só vende o boi na baixa, ‘‘porque acaba sempre segurando (antes) para ver se consegue um preço melhor. Quando a cotação da arroba começa a cair (mais), o pecuarista se apavora e vende tudo de uma vez. Os frigoríficos exportadores estão apostando nessa atitude e querem pagar um preço mais baixo.’’
De acordo com Nogueira, no entanto, não é preciso desestabilizar o mercado ou prejudicar o abastecimento retendo os bois no pasto para forçar a prática de preços melhores. Mas, em represália a atitude dos frigoríficos exportadores, ele sugere que hoje a venda de bois gordos seja apenas para formar os estoques necessários ao abastecimento do mercado e para o cumprimento dos contratos já assumidos.
‘‘Históricamente, nesta época, a arroba fica entre US$20,00 a US$22,00 e não se quer nada a mais do que isso; embora os insumos utilizados na pecuária, muitos da indústria nacional, tenham tido reajustes de até 70%, depois da desvalorização cambial do início do ano’’, afirma. Segundo o diregente do Fórum de Pecuária da CNA, a pecuária de corte hoje vive ‘‘em baixa rentabilidade e o mínimo que se quer é estabilidade nos preços.’’
A ação dos frigoríficos exportadores, segundo Antenor Nogueira, já resultou numa queda média de 5% nas cotações da arroba nos últimos dias e ‘‘esse benefício, além de prejudicar os produtores, provavelmente nunca chegará ao bolso do consumidor.’’
Os pecuaristas, ao venderem os produtos exclusivamente no mercado interno, não possuem as mesmas margens de lucro dos exportadores. O preço histórico da arroba nesse período, garante Antenor Nogueira, ainda não foi recuperado. ‘‘Já o argumento de que as exportações estão em queda pode ser desmentido. De janeiro a setembro deste ano, as vendas externas de carne bovina alcançaram 414 mil toneladas, com um aumento de 45% em relação ao mesmo período do ano passado.’’

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