‘‘Nosso problema é que somos uma propriedade familiar. Tem que inventar o que fazer, senão dorme o dia inteiro’’, brinca o produtor Narciso Garcia Campos, 53 anos, para justificar por que se aventurou a industrializar café em Cornélio Procópio. A ironia só corresponde à realidade num ponto: os pequenos produtores precisam ‘‘inventar’’, sim, mas para conseguir bons preços e competir no mercado.
  A empreitada de Narciso está se mostrando bem sucedida. A industrialização do café começou em agosto e, atualmente, 80% da produção já é vendida transformada. Foram investidos R$ 60 mil em maquinário e R$ 25 mil nas instalações - a minifábrica funciona ao lado da residência da família. ‘‘Não tem um tostão financiado aí. Soltei cheques, fiz tudo parcelado’’, gaba-se o empresário rural, que já está inserindo seu produto em mercearias e mercados de médio porte.
  Narciso conta com gosto de vitória como surgiu a bebida que leva seu nome. ‘‘Os diaristas colhiam nosso café e falavam: ‘a gente só bebe café ruim por aí, por que o senhor não faz um pra gente?’ Fizemos quatro quilos numa semana, na outra doze, tudo no torradorzinho. De 2003 para 2004, compramos um moinho que fazia 20 quilos por hora. E chegamos até aqui’’, resume.
  Herdeiro de uma família com tradição no café desde os avós, Narciso conhece bem as armadilhas do grão: enfrentou períodos de decadência, mudou para o algodão, retornou ao café no modelo adensado em meados da década de 90 e sofreu os efeitos da geada de 2000. Orientado pela assistência técnica, o produtor descobriu que transformar era mais lucrativo que vender matéria-prima porque o preço pago pelo consumidor final nunca abaixa, mesmo quando o valor da saca de café cai.
  ‘‘Antes eu só produzia e, quando fazia muito, empatava. Junto com a Rede (há dois anos), mudou tudo e vai melhorar ainda mais, se Deus quiser. Eu sou peitudo. Hoje estamos trabalhando com um padrão de café comercial, mas um projeto futuro é fabricar café gourmet’’, adianta.
  O impacto da industrialização na vida de uma família de pequenos agricultores é grande. O extensionista Ciro Daniel Marques Marcolini, 38, responsável pela Rede na região de Cornélio, lembra que a decisão de seo Narciso foi fortemente influenciada pelo desejo de manter os dois filhos na propriedade. Até agora, está dando certo.
  Nicolas, 21, passou a percorrer mercados da região vendendo o café. Narciso Filho, 25, diz que gostava de trabalhar na lavoura, mas que está mais satisfeito lidando com a fábrica. ‘‘É bem melhor do que ficar debaixo de sol’’. E dona Lúcia, esposa de Narciso, o que achou? ‘‘Mudou para melhor. O marido fica mais tempo em casa e os meninos estão sempre por perto’’.

mockup