Muitas pessoas se acostumaram a ver, divulgados pela imprensam os valores diários do indicador da soja da ESALQ/BM&F mas, talvez poucos tenham tido a oportunidade de saber o que este número significa, qual a sua utilidade, de onde surgiu, quem calcula e porque.
O indicador nasceu para atender a uma necessidade da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) a única bolsa de mercados futuros agrícolas do Brasil. Dado que estes mercados ainda estavam se desenvolvendo e não apresentavam a liquidez desejada. Uma forma contornar este problema seria permitindo a liquidação financeira dos contratos, ao invés da obrigatoriedade da liquidação física para quem ficasse com posição em aberto na Bolsa.
O Paraná detém a maior capacidade instalada de esmagamento de soja e era, até a safra passada, o estado maior produtor de soja do País além de que, a maior parcela das exportações brasileiras de soja é feita através do Porto de Paranaguá. Por isso, o Paraná foi escolhido como o mercado mais representativo da soja no Brasil e o indicador de preços teria como base as negociações realizadas aqui.
O Indicador de Preços de Soja ESALQ/BM&F é uma média geométrica ponderada dos preços observados no Estado do Paraná para transações no mercado de lotes (atacado, disponível) entre vendedores (produtores/cooperativas) e compradores (indústrias/exportadores).
Para obtenção do Indicador, o Estado do Paraná foi dividido em 5 regiões: Porto de Paranaguá, Ponta Grossa, Sudoeste, Oeste e Norte. Em cada região é consultada diariamente uma amostra representativa de participantes do mercado (compradores, vendedores, corretores e comerciantes) para coleta dos preços que comporão o Indicador do dia.
O indicador é determinado pela média geométrica geral das médias aritméticas simples regionais ponderadas pelas participações relativas das regiões na capacidade estática total de esmagamento do estado do Paraná no ano imediatamente anterior. Essas participações são atualizadas anualmente todo dia primeiro de dezembro de cada ano, desde que a média móvel dos últimos dois anos referente a capacidade estática de processamento do Estado do Paraná, com dados fornecidos pela Abiove, apresente mudanças estatisticamente significativas.
Portanto, o indicador é uma média ponderada dos preços da soja praticados no mercado de lotes nas regiões definidas acima. Note que o preço de negócios efetivamente realizados é a informação mais importante na formação do indicador e não apenas as intenções de compra e venda. O indicador reflete os preços do mercado de lotes e não os preços ao produtor.
O indicador é calculado pela ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo) de Piracicaba, através do CEPEA - Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada - um centro de pesquisa da ESALQ. Assim como o indicador da soja, o CEPEA/ESALQ calcula também os indicadores do boi gordo, algodão, café, açúcar e álcool.
A universidade é um órgão isento que não vende nem compra qualquer produto. Seu papel é contribuir para a transparência do mercado, levantando, analisando, calculando e divulgado o preço médio de mercado dos produtos com os critérios científicos apropriados.
A qualidade dos indicadores só pode ser julgada pelo próprio mercado e, neste sentido, os fatos falam por si. O indicador do café foi escolhido como parâmetro para o programa de retenção brasileiro. Supermercados estão adquirindo boi gordo para abate com base no indicador do boi gordo. Produtores de algodão vendem antecipadamente sua produção para indústrias com base no indicador do algodão. Negócios de açúcar são feitos sobre o indicador do açúcar e o mesmo começa a ocorrer com álcool. Os preços do açúcar e álcool da ESALQ são utilizados na formação do preço da cana-de-açúcar em São Paulo.
A Universidade Federal do Paraná iniciou trabalho semelhante este ano, gerando os preços médios mensais de açúcar e álcool no Paraná, os quais são utilizados na formação do preço da cana-de-açúcar ao produtor paranaense. É a Universidade servindo a comunidade. De forma isenta, como lhe cabe.
A autora é Professora da Universidade Federal do Paraná e Pesquisadora do CEPEA

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