Índia poderá competir com Brasil
A produção de soja na Índia deve crescer nos próximos três anos para 8 milhões de toneladas, e como 95% da sua produção são exportados, este crescimento deverá abastecer o mercado asiático, que recebe hoje muita soja brasileira. A avaliação é do pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa de Soja (Embrapa Soja), Flávio Moscardi, que esteve no mês passado na Índia como consultor da FAO, para conhecer os resultados do projeto implantado naquele país em 96. Os indianos estão muito mais próximos do mercado asiático e podem representar uma forte concorrência para a soja brasileira, destaca.
Segundo o pesquisador, o Centro de Pesquisa de Soja da Índia tem desenvolvido boas tecnologias, variedades adequadas e modernas práticas de cultivo com rotação de culturas. Além de uma avaliação positiva do projeto da FAO, Moscardi está informando em seu relatório o interesse da criação de um convênio de cooperação mútua entre Brasil e Índia. O ministro da agricultura da Índia manifestou este interesse, e acho que os dois países têm a ganhar. Nós temos resultados que interessam para eles e eles também têm informações que nos serviriam, recomenda.
CrescimentoA Índia é um dos poucos países que têm condições de expandir a área de plantio de soja. A área cultivada lá tem crescido em média 500 mil ha por ano. São atualmente 4 milhões de produtores numa área de 6 milhões de ha. O tamanho médio das propriedades é de 1,5 ha. As áreas são pequenas e os produtores muito pobres, mas a soja tem uma importância econômica muito grande na Índia, porque viabiliza o cultivo de três culturas anuais, informa Moscardi.
A maioria das propriedades indianas são pequenas. A foto mostra produtores fazendo rapaduraA produtividade da soja indiana ainda é muito baixa, entre 900 a 1000 kg/ha, mas pode facilmente atingir 1.500 kg/ha num curto prazo. Segundo Moscardi, eles já dispõem de tecnologia para isto. O que falta é um trabalho de treinamento e assistência técnica para difundir os resultados já existentes, comenta. Um dos aspectos negativos é que 95% dos produtores cultivam sementes próprias, o que reduz a qualidade e a produtividade. Outros fatores como colheita manual, e controle de plantas daninhas também manual dificultam o rendimento das culturas. A falta de acesso dos produtores às informações da pesquisa também é fator limitante.
Pontos em comumA interação entre Brasil e Índia é importante, no ponto de vista do pesquisador. Segundo Moscardi, interessa para o Brasil conhecer melhor a realidade e o desenvolvimento da sojicultura indiana, até para definir estratégias num futuro em que eles serão nossos concorrentes.Temos a ganhar também nas trocas de informação. Por exemplo, entre muitas outras pesquisas, eles têm materiais resistentes à seca e a certas doenças, que nos interessariam, para a área do Cerrado. A coleção de germoplasma também seria oportuna para nós. Os indianos têm interesse em material brasileiro de período juvenil longo, além de outras pesquisas.
A região onde mais se cultiva soja é em Madhya Pradesh, maior Estado indiano, localizado no centro do país. Nessa região estão concentrados 80% da soja indiana. O local tem características climáticas muito parecidas com a região Sul do Brasil, do Paraná ao Rio Grande do Sul.
A estrutura de seus órgãos de pesquisa é muito parecida com a da Embrapa, e acredito que o nosso modelo se baseiou muito no deles, considerando que a ICAR (Empresa Indiana de Pesquisa Agropecuária) foi criada muito antes da Embrapa, explica Moscardi.
A soja foi introduzida na Índia na mesma época em que a leguminosa entrou no Brasil, por volta da década de 70. No Brasil a área cultivada cresceu muito mais rapidamente, ocupando atualmente de 12 a 13 milhões de hectares com uma produtividade média de 2.300 kg/ha. O crescimento na área brasileira foi maior porque se investiu logo no melhoramento de variedades. Na Índia este trabalho foi mais lento, explica Moscardi. O desenvolvimento de variedades de ciclo precoce foi fundamental para os indianos, porque foi possível encaixar a soja entre duas culturas importantes para eles, como a batata e grão-de-bico. Foi a partir daí que a área na Índia começou a crescer mais, completa Moscardi.DivulgaçãoFlávio Moscardi, da Embrapa Soja, com um grupo de pessquisadores indianos, num camo experimental de sementesCristina Côrtes





