Se por um lado cresce a demanda mundial por agroenergia e a busca de fontes renováveis, por outro o mundo vive uma onda de prosperidade. ''Nunca antes houve um crescimento tão alto, estável e consciente do PIB mundial como nos últimos três anos'', ilustrou Gazzoni. ''São centenas de milhões de pessoas que antes passavam fome e que agora chegam ao mercado e pressionam a produção de alimentos'', completou.
O aumento na demanda refletiu nos preços dos produtos agrícolas como soja, trigo, milho e óleos vegetais que tiveram neste ano altas significativas nas bolsas de mercadorias internacionais.
A tonelada de óleos vegetais, por exemplo, alcançou cotação recente de US$ 1.550, quase quatro vezes mais o preço de 2001. No caso da soja, a escalada de preço foi motivada pela redução redução da área plantada com o grão nos Estados Unidos. ''Temos o efeito energia obviamente, mas o maior efeito é a questão social; são populações pobres que ganham renda e querem comer', reforçou o pesquisador.
Segundo dados da FAO - órgão das Nações Unidas para a Alimentação - existem atualmente 1,5 bilhão de hectares de área para expansão da agricultura no mundo. E o Brasil encontra-se uma posição privilegiada. ''É a esperança do mundo'', garantiu o pesquisador, porque é o único país que pode aumentar estabelecer novas fronteiras agrícolas sem mexer com 'dogmas' como Amazônia e Pantanal. ''Basta aumentar a produtividade entre 1,5% e 1,7% ao ano em 75 milhões de hectares até 2030'', explicou. Hoje, segundo a FAO, são 800 milhões de pessoas passando fome no mundo.
No caso do milho, Gazzoni lembrou que os Estados Unidos ainda são os maiores produtores e ainda definem o preço no mercado mundial. O problema é que não há mais como os norte-americanos expandirem sua área de cultivo sem ocupar áreas de preservação. Sobra a opção de aumentar a produtividade, que hoje já é acentuada - em torno de 2,5% ao ano.
Quanto à soja, o Brasil poderá responder por quase 70% do mercado mundial nos próximos 10 anos. A vizinha Argentina atenderia 60% da demanda mundial em farelo de soja e óleo. Porém, o Brasil perde muito ao limitar a exportação ao grão da soja, sem valor agregado. Isso pode resultar em perdas estimadas em US$ 85 bilhões para o produtores até 2019, de acordo com números apresentados por Décio Gazzoni.
Esse montante é suficiente para adquirir 17 milhões de hectares de terra ou 850 mil tratores, 350 mil colhedeiras ou custear 5 safras de soja, segundo ilustrou Décio Gazzoni. Para o governo, a perda acumulada de receitas no mesmo período representam recursos suficientes para 5 anos de bolsa-família, construção de 1 milhão de salas de aula, 1,2 milhão de postos de saúde, 500 mil caminhões e 170 mil km de estradas.
''Que me perdoem os ateus, mas a cana-de-açúcar é uma benção de Deus', ilustrou o pesquisador Décio Gazzoni ao falar sobre o potencial energético da planta. Ele explicou que uma tonelada de cana equivale a 153 kg de sacarose e 82 litros de etanol e a 1,3 barril de petróleo. Ele usou também a energia da Itaipu binacional para ilustrar o potencial da cana. ''Uma itaipu é igual a 47,2 milhões de toneladas de cana. Ou seja, a produção de cana do Brasil equivale a 10 itaipus', comparou. Gazzoni ressaltou ainda o balanço energético favorável da cana e das palmáceas tropicais como o dendê. Para produzir 11 litros de etanol gasta-se 1 litro de diesel. Com trigo e milho, essa relação não chega a 2 por 1. Na produção de biodiesel com dendê, a relação é 9 por 1 e óleos usados, 5 por 1.

mockup