A crise hídrica vivida no Sudeste do País a partir do ano passado colocou a população urbana de algumas regiões em estado de alerta com a falta de água. Não é mais possível olhar para tal recurso natural de maneira negligente, sem projetar os prejuízos ambientais, sociais e econômicos que surgem com a falta dela. O ambiente rural brasileiro – que por muito tempo tratou a água como abundante, quase fonte infinita para as lavouras – também começa a quebrar paradigmas e analisar o seu racionamento de forma mais sistemática.

Com as fortes estiagens que atingiram as propriedades rurais nas últimas safras, em especial a paranaense em 2013/14 e 2014/15, a grande questão é: a crise hídrica pode atingir a produção brasileira de commodities e outros produtos agrícolas de forma intensa nos próximos anos? O Ministério da Agricultura (Mapa) está em busca desta resposta e solicitou a quatro entidades – Embrapa, Agência Nacional das Águas (Ana), Instituto Nacional de Metereologia (Inmet) e Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) - um raio-x completo de como está a situação hídrica no agronegócio brasileiro. No Brasil, cerca de 72% das vazões consumidas são destinadas a agricultura, em especial a área irrigada (veja box), além de 11% para matar a sede dos rebanhos.

Relatórios foram enviados diretamente para ministra Kátia Abreu e, há pouco mais de um mês, foi lançado o Portal da Água, um hotsite dentro do site da Embrapa que abrange diversos níveis de análise, como a disponibilidade hídrica para a safra 2014/15, prognósticos para os próximos 3 meses, mapas sobre irrigação (principalmente por pivôs centrais), análise de dados da Conab, previsão de clima e chuva e estratégias para que o produtor possa lidar com tais informações. Por meio do Soma Brasil, um sistema de informações geográficas on-line, também é possível monitorar a evolução da disponibilidade de água no solo e as anomalias de precipitação nas áreas produtivas.

Os levantamentos realizados pela Embrapa Monitoramento por Satélite da última semana de janeiro (válidos até abril), por exemplo, apontam uma baixa disponibilidade hídrica no Paraná para diferentes commodities, incluindo o milho segunda safra, trigo, feijão e outras culturas importantes que serão plantadas no segundo semestre.

De acordo com o pesquisador e chefe-geral da Embrapa Monitoramento por Satélite, Mateus Batistella, os levantamentos atuais em relação à água em ambientes produtivos não apontam para quebras significativas para a safra atual. Entretanto, ele ressalta que o monitoramento sobre a situação da água no agronegócio deve ser realizado a partir de agora sistematicamente e de forma constante. "No contexto das mudanças climáticas, eventos extremos como falta ou excesso de chuvas devem ocorrer com mais frequência. Esse assunto (hídrico) veio para ficar. Não estamos mais diante de uma questão urgente e passageira, mas algo que será recorrente e que exige monitoramento em todas as safras. Essas leituras servem para criar um estado de atenção", salienta.

Não por acaso, em pouco mais de um mês no ar, o portal Água na Agricultura bateu recordes de acesso, já que produtores, cooperativas, gestores públicos, seguradoras e financiadores envolvidos com o agronegócio estão atentos para a questão. "Os produtores precisam da informação porque a análise de disponibilidade hídrica é muito dinâmica. É utilizar tecnologias para evitar desperdício e nós, como entidades de pesquisa, dar condições para que os produtores monitorem seus recursos com mais detalhamento e velocidade possível", complementa Batistella.

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