Incerteza e crise esperam Século 21
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de dezembro de 2000
Jota Oliveira De Londrina 
No livro A Era dos Extremos o Breve Século XX (1914-1991), o historiador inglês Eric Hobsbawm considera que o fim da década de 80 e o início da década de 90 marcaram o fim de uma era e o começo de outra bem mais próxima do Século 20 o Terceiro Milênio. O historiador diz, ainda, que a última parte deste Século revela decomposiçâo, incerteza e crise. É o que chama de melancolia de fim-de-século.
Hobsbawm divide o Século 20 em dois períodos: antes de 1914 (começo da Primeira Guerra Mundial) e 1945 (fim da Segunda Guerra). Pouco adiante, o historiador coloca os fatos onde deveria: ...o terceiro quartel (N.R.: a quarta parte do século) do Século assinalou o fim da história escrita ao longo de sete ou oito milênios de história humana, iniciados na revolução da Agricultura na Idade da Pedra ...quanto mais não fosse, porque ela encerrou a longa era em que a maioria esmagadora da raça humana vivia plantando alimentos, pastoreando.
ProjeçõesAssim como Hobsbawm falou do passado, embora do atual Século 20, há quem faça projeções para o Século 21, o começo do Terceiro Milênio. Essas projeções são apocalípticas, embora muito se discuta e pouco se faça, para evitar o desastre, um deles, menos aparente: vai faltar água potável no Planeta, e a próxima Grande Guerra será pelo domínio da água. Faltando água potável, faltará água para irrigação e mais gente passará fome, porque entre irrigar o trigo ou o milho e morrer de sede, o ser humano preferirá beber água.
Reuniões mundiais, convocadas pela ONU, ou regionais, promovidas por grupos de nações, têm discutido com frequência o problema da água, assim como o efeito de estufa e outros desastres ambientais em andamento.
Natureza, adeusAutor de O Fim da Natureza e, entre outras obras, de Primavera Silenciosa (previsão de que até os pássaros desaparecerão, caso as agressões ao ambiente não sejam contidas), o americano Bill McKibben assim explica ao que se refere ao O Fim da Natureza:
...não estou me referindo ao fim do mundo. Quando falo em natureza, refiro-me a um determinado conjunto de idéias humanas sobre o mundo e o lugar que nele ocupamos. Mas, a morte dessas idéias começa com mudanças concretas na realidade à nossa volta...
Recentemente, em artigo publicado nos jornais, Norman Borlaug (Prêmio Nobel da Paz em 1970), ao defender a biotecnologia (como fizera na Revolução Verde), cuja face mais evidente é a transgênese, lembrava: ...quando eu nasci, há quase 85 anos, a população do mundo era de 1,6 bilhão de pessoas. Hoje são 6 bilhões de seres humanos. Borlaug propõe o uso da biotecnologia (transgênese em especial), para que a população crescente seja alimentada, assim como ele imaginou os propósitos da Revolução Verde, que apesar de lhe ter valido o Prêmio Nobel, não eliminou as deficiências alimentares do mundo.
Animais e saúdeEm A Próxima Peste Novas Doenças em um Mundo em Desequilíbrio (Editora Nova Fronteira), a jornalista americana Laurie Garret diz que a AIDS não é uma ocorrência isolada, mas reflete mudanças nos hábitos da sociedade provavelmente trará consequências inesperadas e naturalmente desastrosas...
Garret, uma pesquisadora minuciosa, pesquisou causas e efeitos das pestes em todo o mundo: ...e ainda não vencemos a malária, a tuberculose, o cólera, o dengue e a meningite. Agora, lembra, surgem o lassa, o antavírus e as batérias que resistem a todas as drogas. A imprensa do 1º Mundo fala de pragas e epidemias que trarão devastação e desastres.
Seguindo o gancho, ou provavelmente, ela tenha sido a fonte dessas notícias, ela destaca um fato positivo, a possibilidsade dos causadores de doenças tornarem-se o socorro das plantas e animais que vitimam neste fim de Século e começo de Milênio. No entanto, a regra é o contrário: antibióticos foram criados para defender a saúde dos animais, destinados ao consumo humano. Os animais viviam mais tempo quando as doenças eram tratadas com antibióticos. Eles entravam nas rações das galinhas, das vacas leiteiras, dos bois.
O homem, então, esterilizava os bois antes de matá-los; conseguiam mais tempo de transporte para os ovos, as galinhas, e outros animais. Houve mutações nos antibióticos e os germes adquiriram genes de resistência, mesmo enquanto estavam dentro das tripas das vacas.
A água e a guerraO jurista português Mário Baptista Coelho visitou o Brasil no ano passado, afirmou que um dos maiores problemas do Século 21 será a escassez de água potável. Ele previu que num futuro bem próximo grandes conflitos mundiais serão deflagrados.
Coelho previu que o aumento populacional e a crescente demanda pelos recursos hídricos certamente resultarão no uso de todas as reservas disponíveis de água doce no mundo, dentro de 50 anos. Água não aumenta, nem diminui, mas pode ser poluída a ponto de não ser consumida pelo homem. Esta é mais uma visão dos problemas que aguardam o primeiro século do Terceiro Milênio.
Um desses problemas será também causado pela própria água contaminada. Caberá à Humanidade resolver questões ancestrais que vêm de séculos passados e sobreviveram ao Século 20: as doenças transmitidas pelas águas diarréia, cólera, febre tifóide e paratifóide, hepatite infecciosaa, salmonelose, desinteria bacilar, gastroenterites, parasitoses e teníase.
FuturólogosDesde Nostradamus todos os futurólogos erraram (menos Júlio Verne que, escrevendo ficção científica, inspirou cientistas modernos). Jean Jacques Servan-Schreiber (O Desafio Americano), Hermann Khan (O Ano 2000) e Elvin Tofler (A Terceira Onda), os modernos mais famosos, escreveram durante e depois da Guerra Fria (bipolarização Estados Unidos x União Soviética).
Pura imaginação. Eles faziam parte daqueles que acreditavam ter acontecido tudo, e nos ciclos da História (os acontecimentos se repetiriam de tempos em tempos). Então, dava para fazer previsões, os países estavam bem definidos, a geografia do mundo não mudaria logo. Os três últimos futurólogos ainda estão por aí, para conferir seus enganos. A escritora mais recente a respeito de probabilidades é a americana Laurie Garett, autora de A Próxima Peste. Ela trabalha, baseando-se no que está aí, acontecendo no dia-a-dia.


