Incentivo para pensar no futuro
O semblante deles enquanto a ''professora'' fala é de pura curiosidade e atenção, afinal o assunto é desconhecido, mas desperta interesse. O tema é a classificação de grãos de milho e soja, o mais novo curso do Senar na Penitenciária de Londrina (PEL), que teve a participação de 30 alunos e foi ministrado entre os dias 22 e 27 deste mês. Enquanto a agrônoma e instrutora Ivonete Teixeira Rasera mostrava em uma mesa a máquina que verifica o grau de umidade de um grão de soja, o detento Vagner Carvalho Martins, 37, participava com perguntas e depoimentos. ''Eu me criei na roça e sei mais ou menos como funciona esse negócio de desconto dos grãos que são ruins ou quebrados. Já morei junto com meus pais em sítios na Maravilha, em Guaravera e Paiquerê (distritos de Londrina) e me identifico com esses cursos da área rural'', disse ele.
No curso sobre grãos, que visa formar classificadores para trabalhar em cooperativas ou cerealistas, os internos aprenderam sobre as características do padrão de grão. No caso da soja, conforme livreto distribuído aos participantes, o teor de umidade não pode passar de 14% (caso contrário o grão mofa), o grau de impureza (palha, pedra e matéria estranha) não pode passar de 1%, o limite de grãos quebrados é de 30%, e o de grãos avariados e esverdeados de no máximo 8%.
''Estou fazendo o curso porque quero voltar a trabalhar na lavoura quando sair daqui, porque acho que há mais oportunidades de trabalho que na cidade'', afirmou Devanil Nunes, 37 anos, solteiro, que é de Uraí, mas já trabalhou em fazendas em Sertanópolis e Sertaneja. ''Meu ramo sempre foi soja e milho. Numa das fazendas em que trabalhei, de 1.200 alqueires, quase tudo era mecanizado e eu já conhecia, na prática, muitas das coisas que estou aprendendo aqui na teoria'', relatou Devanil, condenado a 17 anos de reclusão, a maior parte deles já cumpridos no regime fechado.
Ele acredita que no final do ano ganhará liberdade condicional e poderá começar a trabalhar. ''Meu plano é tentar fazer um criame de peixe, o que não depende de grande investimento. Tenho amigos em Rancho Alegre e Sertaneja que poderiam me ceder um pedacinho do sítio para eu fazer tanques só de engorda, porque os alevinos e a ração as firmas dão para você criar e depois compram o peixe'', afirma Devanil.
Outro que faz planos é Heros Barros Ferro, 25 anos, que já cumpriu seis anos e cinco meses e deve sair da PEL dentro de dois meses. ''Nesse tempo todo que fiquei aqui tomei consciência da melhor forma de agir e não quero fazer parte da lista dos reincidentes. Como sou solteiro, posso ir tentar emprego em propriedades do Mato Grosso, Goiás ou Tocantins, mesmo que ganhe pouco no começo'', diz Heros, que já concluiu os dois cursos de administração rural e o de agrotóxicos e está terminando o 2º grau dentro da PEL. (J.K.)





