Imune a tarifaço, milho caminha para safra recorde
Com dois terços da colheita concluídos no PR, produtividade ficou acima da expectativa, com preços mais altos e câmbio semelhante a 2024
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de agosto de 2025
Com dois terços da colheita concluídos no PR, produtividade ficou acima da expectativa, com preços mais altos e câmbio semelhante a 2024
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

A cultura do milho é um dos exemplos que a agressiva política tarifária dos Estados Unidos pode ser pouco relevante em alguns segmentos do agronegócio brasileiro.
Sem a apreensão que afeta a cafeicultura, a bovinocultura e o setor de pescados, que passam a pagar esta semana a taxa de 50% somente para ingressar no mercado daquele país, os produtores paranaenses têm um motivo a mais para colocar 2025 em suas melhores lembranças.
De acordo com o Boletim de Conjuntura Agropecuária do Departamento de Economia Rural (Deral), divisão da Secretaria do Estado de Agricultura e Abastecimento, já dá para afirmar que nunca houve uma produção tão grande de milho no Estado.
Com quase dois terços da colheita concluídos nos 2,77 milhões de hectares plantados, a previsão é que a segunda safra ultrapasse as 17,06 milhões de toneladas no Estado, 260 mil a mais que a previsão inicial. Em comparação com a “safrinha” do ano passado, o crescimento previsto é de 31%, um salto ainda maior do que o registrado na primeira safra, já totalmente colhida, e que chegou a 18%.
De acordo com informações da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo, a Abramilho, contidas em nota enviada à FOLHA, o resultado positivo está ligado ao aumento de produtividade das propriedades paranaenses, que alcançou 20% em relação ao passado, contra um crescimento nacional da ordem de 11%.
De acordo com o analista da cultura do Deral, Edmar Gervásio, o principal fator do incremento é que nas áreas já colhidas, o impacto do clima foi menor. “Compensaram em muito as perdas que ocorreram em outras regiões pelas ondas de calor e estiagem em fevereiro e as posteriores geadas.”
O Deral esclarece que mesmo que a colheita no Norte do Estado - região na qual o plantio é mais tarde e onde se concentra a terça parte ainda não colhida - seja abaixo do esperado, o recorde está garantido, “com certo grau de segurança”.
Gervásio calcula que o preço do grão deve ficar ligeiramente superior em comparação com a safra de inverno do ano passado, cerca de 2,5%, com a saca de 60 quilos sendo comercializada em torno dos R$ 50.
A safra brasileira de milho também tende a ser recorde, com 132 milhões de toneladas estimadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “Para a economia de forma geral o preço não tão alto é benéfico, pois ainda remunera o produtor, provavelmente isso vai impactar nas proteínas, com possível redução ou manutenção de preços, pois o custo de produção deve ser menor”, completou Gervásio. “Todas as cadeias que dependem do milho estarão abastecidas.”
O intervalo de um ano também pouco alterou outro componente importante do valor da saca, a cotação do dólar, que repete o patamar da “safrinha” passada.
AUMENTO DE CUSTOS
No entanto, a Abramilho faz algumas ponderações em sua nota. “Os preços, por outro lado, não estão tão favoráveis aos produtores devido ao aumento nos seus custos. Ainda que não se observe uma grande variação no preço pago em Chicago no contrato futuro, quando comparados agosto de 2024 e agosto de 2025, houve uma queda de US$ 3,90 para US$ 3,82 por bushel”, compara. “No entanto, as previsões otimistas para a safra norte-americana podem puxar esses preços ainda mais para baixo”.
O especialista em commodities agrícolas, José Vitor Hidalgo, acredita que quem tiver condições de armazenar o milho vai levar uma vantagem considerável no último trimestre do ano, quando boa parte das despesas já teve que ser quitada mas também o momento em que o mercado interno de compras fica mais aquecido e a oferta já está menor. Ele lembrou que no ano passado, o preço subiu 20% neste período em relação ao início do trimestre anterior.
“A colheita americana avança muito bem, o que aumenta a oferta e pressiona os preços. A retomada da Argentina ao mercado internacional intensifica a concorrência com o Brasil, que já enfrenta desafios logísticos, com fretes mais caros e com as dificuldade dos portos em pagar mais pelo milho no programa de exportação”, analisa. “Olhando para o Brasil, ainda há uma boa área para colhermos nos principais estados produtores, com destaque para São Paulo, onde os trabalhos estão mais atrasados. Essa safra está acontecendo de forma mais espaçada.”
O analista aconselha os produtores a acompanharem atentamente a cotação do dólar, o que pode gerar melhores oportunidades de venda. “A abundância do cereal este ano talvez faça esta variação ser menor que a do ano passado e com uma expectativa de juros mais baixos no segundo semestre nos Estados Unidos, pode haver uma desvalorização do dólar”, explica. “O mercado também vai exigir que o produtor vá além dos fundamentos e considere aspectos técnicos, olhando o mercado interno como oportunidade para tomar as melhores decisões.”
RITMO DOS EMBARQUES
A nota da Abramilho lembra que o ano começou aquecido para as vendas externas no primeiro trimestre, com recuo em maio e junho. No mês passado, houve uma retomada, com embarque de mais de 4 milhões de toneladas. “Os meses de agosto e setembro costumam apresentar aumento significativo dos volumes. Até outubro saberemos com mais exatidão o volume exportado. A Conab, por exemplo, estima uma exportação de 36 milhões de toneladas — um volume menor que o do ano passado, mesmo com uma produção interna maior. Outras consultorias estimam acima de 40 milhões de toneladas”, calcula.
A associação, o Deral e os analistas de mercado concordam que o “tarifaço” da Casa Branca não impacta as exportações, uma vez que os países são competidores globais. Mesmo eventuais retaliações dos países compradores aos EUA não poderiam ser aproveitadas pelos produtores brasileiros porque boa parte da produção já está comprometida com os contratos de venda.
Impactos indiretos também são muito improváveis porque as carnes de aves e suínas, que consomem boa parte da produção no Paraná, também não são exportadas aos EUA.
RUMO AO ORIENTE MÉDIO
De acordo com o Deral, as exportações de milho no Paraná alcançaram 1,18 milhão de toneladas nos primeiros quatro meses do ano, um aumento de 77% em relação ao mesmo período do ano passado, em que o Estado registrou 668,4 mil toneladas, segundo dados do Agrostat/Mapa.
Em relação a receita, foi gerado um total de US$ 267,1 milhões ou R$ 1,5 bilhão. O aumento foi de 81% em comparação com o primeiro quadrimestre de 2024, quando foram gerados US$ 147,9 milhões. Isso por conta do aumento no volume embarcado e pelos preços melhores.
“De janeiro a abril de 2024 o Paraná encontrava-se em terceiro lugar do ranking nacional em exportação de milho. No mesmo período deste ano o Estado se consolidou como segundo lugar, ficando atrás apenas do Mato Grosso ", afirma Gervásio.
O Irã foi o principal destino do milho paranaense durante o período, que importou 52% do volume total exportado pelo Paraná, seguido do Egito com 12,8% e da Turquia com 11,3%. (Com informações do Agência Estadual de Notícias)


