Importância do trigo para o Brasil
Importância do trigo para o Brasil
Milton Alcover
Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil a alimentação do povo que aqui estava baseava-se na caça, na pesca e em duas plantas que naquela época os europeus não conheciam, o milho e a mandioca. Os portugueses que vieram para o Brasil não se adaptavam a essa alimentação.
Na primeira expedição colonizadora, em 1534, Martim Afonso de Souza, trouxe para o Brasil as primeiras sementes de trigo, que foram plantadas de forma rudimentar, e por incrível que pareça, produziram. A produção, salvo a semente reservada para o próximo plantio, transformou-se também de forma rudimentar, através de um pilão, em farinha. Para os portugueses que aqui estavam foi uma festa o rústico pão que aqui puderam comer.
Em 1680 enviamos a Portugal 250 toneladas de grãos. A cultura foi-se desenvolvendo em altos e baixos até que chegou uma doença, a ferrugem, que desestimulou o plantio.
A chegada de colonos açureanos em 1737, ao Rio Grande do Sul, trouxe novo alento, e em 1805, exportamos 13.500 ton. de trigo, em que uma parte se destinou a Argentina. Novo surto de ferrugem ocorreu, e a cultura do trigo regrediu.
Entretanto, cada colono que aqui chegava, trazia um punhado de trigo e muitas esperanças no coração. A maior parte desse trigo que aqui chegou não se adaptou. De vez em quando no meio da cultura surgia uma planta diferente que se destacava e produzia. Esta era colhida separadamente e multiplicada. Surgiram então as variedades sem nome, que continuavam a ser cultivadas pelos colonos, em pequenas áreas, para seu próprio consumo, principalmente no Rio Grande do Sul.
A partir de 1914 um agrônomo theco, chamado Carlos Gayer, correu as colônias, recolhendo amostras de sementes dessas variedades, constituindo assim uma coleção que foi plantada na Estação Experimental de Veranopólis, no Rio Grande do Sul. Cedeu essa coleção a Benedito de Oliveira Paiva, que trabalhava na Estação Experimental de Júlio de Castilhos, também no Rio Grande do Sul. Paiva dedicou-se a selecionar plantas com relação à resistência a doenças e adaptação a solos ácidos que aqui temos.
Em 1922 o governo brasileiro contratou o serviço do melhorista Iwar Beckman, que usou a coleção de Gayer para cruzar com trigos estrangeiros. Do trabalho de Beckman podemos destacar a criação da variedade Frontana, o marco inicial da triticultura brasileira de nossos dias. Até então, o trigo era cultura manual em pequenas áreas de terras de mata. A partir da Frontana, dada a tolerância a terras ácidas, ele pode ser cultivado em terras ácidas de cerrado planas, fáceis de trabalhar, antes vedadas a essa cultura. Entraram as colhedeiras, e o trigo tomou grande incremento.
Um passo mais foi dado, quando Idelfonso Janso Ferreira Corréia criou, no Instituto Agronômico de Belo Horizonte, a cultivar BH1146. Esta variedade, além de certa tolerância a acidez do solo, tolera mais a seca e o calor, ampliando áreas onde Frontana não podia ser plantado. Foi essa cultivar que mostrou a possibilidade de se cultivar o trigo, ao norte do paralelo 24, então considerado o limite da cultura do trigo.
Ainda como destaque entre os pioneiros, podemos citar Ady Raul da Silva, que criou inúmeras cultivares que mantiveram a produção brasileira estabilizada. Uma de suas criações foi a IAS 20 cultivada em todas as regiões tritícolas do País.
Não podemos deixar de citar aqui a variedade IAC 5 - Maringá criada na Estação Experimental de Capão Bonito, em São Paulo, pertencente ao Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Essa cultivar ficou em recomendação por mais de 30 anos e seu cultivo cobriu a maior área em todas as regiões tritícolas do Brasil.
O trabalho de melhoramento de trigo feito no Brasil está sendo útil em outros países. As variedades aqui criadas vêm sendo utilizadas quer diretamente no cultivo em outros países ou nos cruzamentos para transmitir suas características, nos mais importantes centros de pesquisa e experimentação, como o Cimmyt no Mexico. Ocupando áreas antes impróprias ao trigo, o trabalho de melhoramento feito no Brasil, para essa cultura, está colaborando para maior produção de alimentos, para reduzir a fome.
Enquanto a produção de trigo no Brasil era pequena, os moinhos não se importavam e em uma política de bom relacionamento, compravam o pouco trigo que o Brasil produzia. Quando a produção começou a ser mecanizada e o volume aumentou, os moinhos passaram a não querer comprar o trigo nacional. Naquele tempo o governo queria o trigo no Brasil, por inúmeras razões favoráveis. Criou então o CETRIN, um órgão do Banco do Brasil, único comprador do trigo, quer nacional ou importado. O CETRIN comprava o trigo e o vendia aos moinhos. Chegamos a ser quase auto-suficientes. Em 1987 consumíamos 7.000.000 de toneladas e chegamos a produzir além de 6.000.000 de toneladas.
Assim que Collor subiu ao poder, uma das primeiras coisas que fez, foi fechar intempestivamente o CETRIN, que estava funcionando bem, e passar aos maageiros a compra do trigo, sem nenhuma preparação ou aviso. Moageiros passaram a não querer o trigo nacional, alegando má qualidade.
Não puderam sustentar essa mentira. Hoje quase todas as variedades recomendadas são de qualidade industrial superior. Em termos de qualidade o trigo nacional é, sem sombra de dúvidas, superior ao argentino. O trigo de qualidade industrial superior plantado em São Paulo, Norte do Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás e Brasil Central é igual ao trigo canadense, considerado o melhor do mundo.
Por que sermos produtores de trigo? Do ponto de vista agrícola é uma cultura para grandes áreas, com ou sem irrigação, que podemos fazer após a cultura de verão, possibilitando duas culturas econômicas no mesmo solo e no mesmo ano, o que não é comum em outros países.
O trigo reduz o custo de produção das culturas de verão, especialmente a soja, em pelo menos 15%, tornando a soja mais competitiva no mercado externo. O trigo é um dos itens mais caros de nossa pauta de importação, desequilibrando nossa balança econômica, criando déficit.
Do ponto de vista econômico e social, com a cultura do trigo criamos novas riquezas vindas da terra, alimentos e novos empregos tão necessários, resultando em menos miséria, mais empregos, menos fome, mais bem-estar social em espiral crescente.
Já igualamos a nossa produtividade média à dos países exportadores. A Argentina tem a produtividade média de 2000 kg/ha. Produtores brasileiros tecnificados estão produzindo 3.000 kg/ha, e na experimentação temos linhagens produzindo até 5.000 kg/ha.
Onde a agricultura vai bem, tudo vai bem. Há bem-estar social; criam-se riquezas da terra; faz-se a capitalização. Para que tenhamos uma agricultura forte, é necessário que sejamos produtores de trigo; que tenhamos uma cultura de inverno de grandes áreas. Já vimos as grandes vantagens que teríamos em sermos produtores de trigo.
Os moinhos não querem comprar o trigo nacional, porque foram instalados na orla marítima, para moer o trigo importado. Os exportadores oferecem prazo longo para pagar, a juros baixos como subsídio.
Temos também o Mercosul, num jogo de duas regras: uma para a Argentina, outra para o Brasil. Para aquilo que a Argentina não é competitiva com relação ao Brasil, como açúcar, álcool, frango, café solúvel e mais 150 itens, a Argentina se protege, criando taxas para a entrada desses produtos naquele país. O suco de laranja brasileiro, para entrar na Argentina, paga uma taxa de 14%. O café solúvel, que os argentinos nunca vão produzir, paga 23%. E para aquilo que o Brasil não é competitivo em relação à Argentina, como o trigo, frutas de clima temperado, alho, cebola, batata e muitos outros, a Argentina paga alguma taxa? Não. Tudo entra livremente.
Como viabilizar a cultura do trigo no País? A primeira coisa é o governo querer. Precisa também que os agricultores tenham em mãos uma tecnologia viável e econômica, o que já existe; que os moinhos comprem por preço justo o trigo produzido.
As sugestões que poderiam ser dadas, seriam: 1 - O governo querer o trigo no Brasil. 2 - O Brasil adotar a mesma política que a Argentina adota com relação ao Mercosul. 3 - Neutralizar prazo longo e juros baixos que os exportadores estão oferecendo aos moageiros.
Com apenas essas medidas poderemos voltar a ser produtores de trigo. Vimos então neste relato que já exportamos trigo; que fomos quase auto-suficientes; que retrocedemos porque o governo não entendeu ainda a grande importância do trigo para o bem-estar do povo e a grandeza deste país.
O autor, pesquisador especialista em trigo, é engenheiro agrônomo; trabalhou no IAC e no Iapar.





