Cláudia Barberato
De Londrina
A pecuária leiteira nacional precisa melhorar, para ganhar a credibilidade do consumidor e não perder para a concorrência externa. Esta foi uma das conclusões de técnicos e produtores reunidos durante o 4º Simpósio Internacional sobre Produção Intensiva de Leite (Interleite), realizado em julho, em Caxambu (MG). O encontro reuniu cerca de 300 pessoas de todo o País e representantes da Alemanha, Cuba, Estados Unidos e Itália.
Realizado com o objetivo de promover, entre técnicos, consultores e produtores de leite, maior intercâmbio tecnológico com especialistas nacionais e internacionais, o encontro contribuiu para demonstrar que as novas exigências em termos sanitários, ambientais e econômicas não deixam mais espaço para uma atividade empírica, com hábitos e procedimentos estagnados.
Produtor esclarecido‘‘Sem dúvida, temos que continuar evoluindo no campo das pesquisas, mas de nada adianta o conhecimento científico, se não for transmitido e assimilado pelos produtores’’, insistiu Luís Fernando Laranja, veterinário e professor da Universidade de São Paulo em Pirassununga.
Laranja responsabilizou a produção do leite de maneira informal e sem higiene e a falta de controle sanitário do rebanho, pelo alto índice de doenças entre os consumidores. ‘‘Entre os novos casos de tuberculose registrados no Brasil, 5% são provocados por alimentos de origem animal, atingindo cerca de quatro mil pessoas por ano. E o leite consumido cru, que corresponde a 50% do total comercializado informalmente, é um dos grandes causadores de tuberculose e de outras doenças. Precisamos eliminar essa chaga nacional e isso só será possível pela conscientização de produtores e consumidores’’, advertiu.
Padrão de qualidadeDurante o evento foi criado o Conselho Brasileiro de Qualidade do Leite, com o objetivo de funcionar como um fórum de educação, pesquisa e troca de informações. Outro objetivo é difundir dados e tecnologia para a cadeia produtiva, a fim de melhorar a qualidade do leite e seus derivados; além de prevenir e controlar a mastite, doença responsável pela queda na produção e na qualidade do leite.
O Conselho elegeu a diretoria executiva para os próximos dois anos. Na presidência está o pesquisador José Renaldi Feitosa Brito, da Embrapa. Técnicos do Brasil e do Exterior, que participaram do encontro, previram que o processo de melhoria da qualidade será lento, porque implica numa evolução cultural. Mas, essa evolução poderá ser mais rápida, se contar com o apoio dos órgãos públicos, das cooperativas, das indústrias de laticínios, dos produtores e dos consumidores.
Controle rigorosoO professor do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Paraná, de Curitiba, Newton Pohl Ribas, sugeriu controle mais rigoroso da qualidade do rebanho e do leite. Segundo ele, haveria maior estímulo aos produtores, se as indústrias de laticínios e cooperativas examinassem mais detalhadamente o leite que recebem, verificando, por exemplo, índices de proteínas e de outros componentes que interferem na qualidade.
O custo das análises, um dos fatores que inibem esse controle qualitativo, poderia ser reduzido substancialmente, se houvesse maior concentração de laboratórios, acrescentou Ribas. Ele citou o caso da Holanda, que possui um só laboratório onde são analisadas mais de um milhão de amostras por mês.
Concorrência dos importadosCom um índice de produtividade médio muito baixo, o Brasil vem enfrentando desde 1991 a concorrência do leite importado. Jacques Gontijo, vice-presidente da Cooperativa Itambé, de Minas Gerais, disse que a pecuária de leite sofreu muito com a abertura do mercado. ‘‘Até 1991 era proibido importar laticínios. De uma hora para outra o mercado foi aberto, sem nenhum planejamento e tivemos que competir com países de altos índices de produtividade e fortes subsídios’’, reclamou.
Vicente Nogueira, da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), disse que as pressões aumentaram com a criação do Mercosul. Como alguns países cobram alíquotas menores de importação, grandes produtores europeus estariam entrando indiretamente no mercado, principalmente pelo Chile, e chegando ao Brasil a preços imbatíveis. Essa porta de entrada funcionava também pela Argentina, que cobrava apenas 19%, mas que, por pressões brasileiras, elevou a alíquota para 30%, nivelando-se ao Brasil.
O representante da CNA disse que dentro de dois meses o Governo deverá baixar portaria, proibindo a compra laticínios importados para os programas sociais de alimentação geridos pelo próprio Governo. Embora as importações, que em 1998 corresponderam a 2,27 bilhões de litros, tenham apresentado pequena queda no primeiro semestre deste ano, principalmente em função da desvalorização cambial, ainda continuam muito altas.
O 4º Interleite foi promovido e organizado pelo Instituto Fernando Costa e pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), e apoiado pela Fundação de Medicina Veterinária (FUNVET).

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