Importações contra a supersafra
Importações contra a supersafra
Luiz Gonzaga Pereira
O Governo está divulgando safra recorde de grãos - 82 milhões de toneladas. Maior utilização de insumos e tecnologia, clima favorável e medidas de apoio seriam as principais razões. A exemplo do ano passado, estariam asseguradas condições para se obter novo saldo comercial favorável com o Exterior em termos de produtos agropecuários. Sem entrar no mérito desta grande façanha, considerando nossas reais potencialidades no setor, fazemos algumas observações em função da política agrícola e o resultado alcançado:
1 - No caso da soja, não houve aumento de produtividade em relação ao ano anterior. No Paraná, apenas áreas isoladas, microrregiões, o rendimento obtido foi igual ou superior. Devido ao excesso de chuvas (cerca de 730 mm em janeiro e fevereiro deste ano, contra 425 mm na média no ano passado), mais de 300 litros de água por metro quadrado nesta safra, combinado com pouca luminosidade no período, houve diminuição na produtividade média da maioria das áreas, entre 5 e 10%, com variações bastante significativas, dependendo do local.
No Rio Grande do Sul, as perdas por estiagem foram bem mais elevadas. De qualquer forma, em função do aumento da área plantada (a soja ocupou espaços antes destinados ao algodão e ao milho), a produção deverá ser maior. Porém, antes de caracterizar uma supersafra, o que houve foi um superpreço e concentração de vendas em plena colheita, ocasionando congestionamento de caminhões nas estradas e portos. Achamos oportuno salientar que muitos agricultores (a maioria) vão se beneficiar apenas parcialmente da explosão de preços no mercado externo.
Devido às restrições no crédito rural, custearam a safra, comprometendo boa parte antecipadamente, por preços que, corrigindo os valores, são bem inferiores aos obtidos atualmente no mercado. As perdas são superiores a R$ 4,00 por saca de 60 kg e o prejuízo é tanto maior quanto maior for a extensão da área cultivada envolvida na operação; milhares de reais drenados para o mercado financeiro e empresas que comercializam insumos e grãos.
2 - Em relação ao café, importante em termos de projeções de superávit no comércio externo de produtos agrícolas, houve redução na produção. O produto foi salvo pela súbita elevação de preços no mercado internacional. A exemplo do trigo, foi um dos produtos de importância estratégica neste equilíbrio mais penalizados pela política oficial.
Saíram de um paternalismo absoluto até os anos 90 (atuação do IBC e CTRIN) para siplesmente nada, apoio nenhum. Sobreviveram apenas pela identificação de produtores com as culturas, esforço isolado de pesquisadores em propostas como o café adensado na diversificação de propriedades; obtenção de novas cultivares de trigo mais produtivas e qualidade exigidas para a panificação. Nossa posição atual, de inferioridade nestes produtos, é consequência da política desenvolvida no Governo Collor, aperfeiçoada na atual.
3 - No balanço final e que depõe contra previsões exageradamente otimistas de elevação no superávit comercial agropecuário, há o aumento significativo no consumo interno do complexo soja, importações maciças de algodão e trigo, leite e derivados (neste item passamos de R$ 1 milhão em 1992 para R$ 225 milhões em 96), e até cacau, soja, milho, frutas; em breve, batata, feijão... Embora tenha, tardiamente, revisto a questão do prazo de pagamento (importações, agora, só à vista) a política em vigor até então solapou as bases para produção interna de algodão e trigo. Juntos respondem por mais de 80% das compras agrícolas externas.
A quem de fato interessou a execução desta política, tendo em vista a grande massa de desempregados gerada no campo, perguntaríamos nós, agrônomos, pequenos produtores, bóias-feiras, arrendatários, parceiros, técnicos agrícolas e outras dezenas de categoria de trabalhadores, especialmente os da cadeia produtiva relacionada ao algodão?.
Aos consumidores, população como um todo, certamente que não. A relação custo/benefício desta política lhes é inteiramente desfavorável. É verdade que a cesta básica, alimentação, mantiveram-se praticamente com preços inalterados; boa parte até diminuiu. Porém, o custo de produção (fertilizante, corretivos, óleo diesel, maquinaris e outros) tiveram aumentos estratosféricos em tempos de estabilidade.
O resultado imediato desta política é o êxodo rural, desemprego em massa no campo, esvaziamento das pequenas cidades, inchaço das médias e grandes; com todas as consequências que este fluxo migratório acarreta. Bem caracterizados na ocupação desordenada dos espaços urbanos, aumento da violência e criminalidade de todos os tipos; deterioração da qualidade de vida e saúde ambiental, exigindo investimentos vultosos em infra-estrutura, saneamento básico, segurança, sempre cada vez mais insuficientes.
Desde os bancos escolares, aprendemos que a agricultura está inserida no setor produtivo primário. As nações mais ricas do mundo destinam, anualmente, vultosos subsídios sob as mais diferentes formas. Nos países da Comunidade Européia, por exemplo, os recursos são da ordem de 200 bilhões de dólares. No Brasil, vivemos os atuais tempos modernos. Nossa moeda, apesar do salário mínimo inferior, é mais forte do que a maioria dos países que a integram; temos a globalização de mercados, competição acirrada, neoliberalismo, esperteza e especulação financeiras jamais vistos. Temos até luxuosas revendas de carros importados, em pequenas cidades do interior...
De qualquer forma, para as autoridades, seria bom que estivessem certas em suas previsões. Eventual saldo comercial agrícola negativo ou apenas equilibrado, somado aos outros déficites já confirmados, poderão levar o País ao colapso e aí, adeus sonho da permanência no poder por 30 anos.
O autor é engenheiro agrônomo em Arapongas, PR.





